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ÁGUA Alternativa
perigosa
Lyrian Saiki - matéria publicada no jornal O ESTADO DO PARANÁ de 08/08/2001. Saúde alerta contra água de fontes
O mau cheiro e o sabor ruim da água fornecida pela Sanepar estão levando centenas de curitibanos e moradores da Região Metropolitana a procurar alternativas para driblar o problema. Uma delas é uso da água mineral, cuja venda chegou a triplicar em algumas revendedoras. Outra opção, bem menos onerosa, é a água de fontes ou bicas. Só em Curitiba, são cerca de quarenta fontes alternativas cadastradas na Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Saúde. O problema é que a maioria delas não apresenta a potabilidade adequada, exigida pelo Ministério da Saúde. "Não estimulamos o uso dessas fontes para o consumo humano, pois não são 100% seguras", salienta a coordenadora de Desenvolvimento em Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde, Lucia Isabel de Araújo. Ela sustenta a afirmação com base no resultado do monitoramento realizado nessas fontes entre maio do ano passado e junho desse ano. "Quase a totalidade, em algum momento da coleta, ficou em desacordo com as exigências do Ministério da Saúde", explica. Segundo ela, foram diagnosticadas a presença de matéria orgânica e coliformes fecais, que podem ocasionar doenças patogênicas como hepatite A, febre tifóide, paratifóide e parasitoses. "Como as pessoas não conseguem visualizar a água microscopicamente, acham que ela está limpa, mas pode não estar", afirma. De acordo com Lúcia, o índice de contaminação aumenta nos dias chuvosos ou no período pós-chuva. Isso porque a água sofre influência da contaminação do lençol freático. Os poços artesianos, avisa Lucia, também podem ter a água contaminada. "O risco existe se houver, por exemplo, rachaduras que permitam a infiltração de contaminantes". Apenas cinco O resultado do monitoramento mostra que apenas cinco fontes apresentariam água de boa qualidade: a fonte João Balim, no bairro Boa Vista; a bica no Parque do Bacacheri; fonte Osternack I, no Bairro Novo; João Poeck, no Bairro Novo; e o poço artesiano do Boqueirão. Lucia prefere acreditar, no entanto, que "coincidentemente" nenhuma das coletas indicou contaminação a afirmar que essas cinco produzem água de fato potável. Nem mesmo a bica do Bosque Gutierrez no bairro Mercês, uma das mais tradicionais de Curitiba, está livre de contaminação. Segundo Lucia, o resultado aponta que a água está 56% em desacordo e 44% em acordo com as exigências de potabilidade. Mesmo assim, lembra ela, técnicos da Secretaria Municipal do Meio Ambiente fazem desinfecção no local semestralmente. Terminado o monitoramento, as duas Secretarias (de Meio Ambiente e Saúde) devem colocar placas nas fontes, alertando a população sobre os riscos de contaminação. "O problema é que a população não quer acreditar nisso. A Secretaria do Meio Ambiente colocou uma placa na bica do Bacacheri, alertando que era imprópria, e as pessoas tiraram as letras 'im", conta Lucia. Orientações Para quem assim mesmo insiste em tomar água das fontes, Lucia orienta que ela seja fervida por três a cinco minutos. Depois disso, ela deve ser agitada com uma colher limpa para reincorporar o oxigênio perdido durante a fervura. O vasilhame onde a água é guardada também deve ser muito limpo e tampado. Além disso, é desaconselhável retirar a água da bica em período de chuva. Buscar água na bica é uma tradição
A tradição de se buscar água nas bicas, principalmente do Bosque Gutierrez, parece estar longe de acabar. Principalmente agora, quando a água tratada pela Sanepar está com mau cheiro e gosto ruim. "Mesmo filtrada, a água encanada está péssima", avalia Marco Antônio Dombrowski. Proprietário de restaurante, ele conta que busca diariamente cerca de cem litros de água na bica para preparar a comida, o suco e o café vendidos em seu estabelecimento. Apesar de a Sanepar garantir que a água continua sendo de boa qualidade, Marco não acredita. "Duvido que não haja problemas. Eles devem estar escondendo alguma coisa da gente". A dona de casa Salete Ceconi também mantém o hábito de tomar água de bica, independente das algas que se proliferaram na Barragem do Iraí, provocando o mau cheiro. "É até melhor que a água mineral", acredita. A vendedora Ema Brima tem a mesma opinião. "Venho buscar água aqui - na bica do Bacacheri - há 17 ou 18 anos. Nunca ninguém ficou doente por isso", conta. Ela diz que só compra água mineral quando não tem tempo de ir buscar direto na fonte.
Indústria do cloro defende produto
Nos últimos tempos, muitos boatos em relação à colocação de cloro na água que abastece as cidades brasileiras surgiram. Chegou-se a comentar que o produto, quando ingerido a longo prazo ou em contato direto com a pele no momento do banho, poderia causar diversos tipos de câncer. Para tentar acalmar a população, a Associação Brasileira da Indústria do Cloro-Soda (Abiclor), junto com a Sanepar, vem apresentando laudos técnicos que comprovam a eficiência do produto. Segundo o engenheiro de segurança, higiene e saúde, William Arthur Millett, o engenheiro Paulo Fernando Castagnari e o diretor comercial, Nelson da Silva, todos membros da Abiclor, o cloro ainda é a substância mais eficaz no combate a impurezas da água. Segundo ele, presente em uma concentração de até 100 microgramas /litro, o produto não causa mal à saúde. "Em quase todo Brasil, há um controle muito grande em relação à quantidade de cloro colocada. Na água distribuída no Paraná, um estudo recente revelou que, em média, a concentração é de 10 microgramas/litro, eficiente para eliminar impurezas e totalmente inofensiva para a saúde", declara. Ele explica que o que pode, também a longo prazo, causar câncer e outros males à saúde, é a presença de trihalometanos (THMs), que possui como um dos compostos o clorofórmio, no líquido. William Arthur explica que os THMs surgem devido a reação do cloro com compostos orgânicos presentes na água e nas tubulações. "Estes compostos surgem devido ao esgoto jogado na água ou através de fontes naturais como, por exemplo, o húmus presente na terra", diz. Ele conta que o que facilita o aparecimento dos THMs é a pré-cloração feita pelas empresas de saneamento. "O melhor é tratar a matéria orgânica do que fazer a pré-cloração, cujos THMs formados não são eliminados no decorrer do tratamento da água". Os profissionais pedem que a população se tranqüilize quanto à presença do cloro e lembram que, no Peru, em 1990, a cloração da água foi suspensa devido às mesmas suspeitas e preocupações parecidas e a população foi vítima de uma epidemia de cólera, que se espalhou por toda a América Latina. "Milhares de pessoas morreram, pois devido à ausência do cloro, várias bactérias se desenvolveram e causaram transtornos à saúde pública", recordam. Algas Quanto às algas que, de acordo com a Sanepar, são o motivo do sabor e do forte cheiro de mofo presente na água que abastece Curitiba e Região Metropolitana, os membros da Abiclor afirmam que o cloro não age sobre o problema. Eles esclarecem que não são as algas que causam os transtornos, mas as toxinas liberadas por elas ao morrerem. "Estas toxinas, que segundo a Sanepar não fazem mal à saúde, não são removidas por cloração", declara William. "Para resolver o problema, experiências anteriores, realizadas em outros locais do País que enfrentaram a mesma situação, indicam que a melhor solução é a utilização de carvão ativo." (Cintia Végas)
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