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Ciências - Zoologia As
vozes do beija-flor
São aproximadamente 320 espécies da família dos troquilídeos ou beija-flores, todos vivendo no Novo Mundo, a grande maioria nas regiões tropicais das Américas, mas também no Alaska e na Patagônia. No Brasil foram registradas pelo menos 80 espécies, das quais um quinto exclusivas do País, particularmente Mata Atlântica e campos rupestres do Brasil Central. Fora essas espécies de distribuição restrita, muitos beija-flores ocupam grandes áreas e alguns executam amplas migrações. Um aspecto pouco conhecido da vida dos beija-flores é seu sistema de comunicação sonora. Apesar de ter uma siringe - o órgão de produção vocal das aves - simplificada, eles são capazes de emitir uma variedade extrema de estruturas sonoras. Esses sons são geralmente muito agudos e rápidos, e portanto pouco percebidos pelo nosso ouvido. O registro dessas vozes requer o uso de gravadores e microfones de alta sensibilidade e fidelidade.
Desta maneira, já foi descoberto que espécies de beija-flores são capazes, por exemplo, de emitir dois sons ao mesmo tempo (fenômeno da "voz dupla" até então conhecido em poucas aves), variar individualmente a seqüência de notas de seu canto (modalidade do canto "versátil" até então conhecido somente em sabiás) e apresentar variações regionais de canto ou "dialetos", indício de aprendizagem. De fato, como o homem, certos beija-flores desenvolveram também a característica, rara entre os animais, de aprender sua língua, ou seja, eles adquirem seu repertório vocal por imitação e não por instinto. A pesquisa aqui resumida e publicada na edição da revista Nature, que circula desde 10 de agosto, baseou-se na observação de duas espécies de beija-flores da Mata Atlântica vivendo em liberdade no parque do Museu de Biologia Mello Leitão: o Balança-rabo-de-bico-torto (Glaucis hirsuta) e o Beija-flor-cinza (Aphantochroa cirrhochloris). Usando a manifestação de um gene ligado ao comportamento, ficou evidenciado que eles têm sete estruturas encefálicas distintas que são ativadas durante o canto; isto representa a primeira demonstração da existência de núcleos cerebrais controlando a voz de beija-flores. Essas estruturas são extraordinariamente similares às sete regiões telencefálicas que estão envolvidas na aprendizagem vocal e na produção de sons em pássaros canoros e em papagaios, os outros dois únicos grupos de aves conhecidos por terem cantos aprendidos. Tal similaridade é surpreendente, já que pássaros canoros, papagaios e beija-flores não são parentes próximos e devem portanto ter evoluído a aprendizagem vocal e a organização cerebral correspondente de maneira independente. A vantagem do Brasil A publicação de mais este artigo assinado por brasileiros na Nature confirma que a pesquisa científica realizada no Brasil tem a capacidade de participar dos avanços de ponta do conhecimento humano. Aliás, o País tem a vantagem de dispor de uma invejável biodiversidade, o que permite escolher as espécies mais adequadas ao assunto a ser estudado. Esta pesquisa só foi possível graças à iniciativa de alguns cientistas de colaborar livremente entre eles. De um lado, este pesquisador, com o Laboratório de Bioacústica da Unicamp, onde são arquivados os dados relativos à biodiversidade; Maria Luísa da Silva, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Comportamento da USP, especializando-se em estruturas complexas de comunicação sonora, e Dora Ventura, cujo laboratório, no Departamento de Psicologia Experimental da USP, já obteve resultados notáveis sobre a visão e o comportamento de alguns beija-flores. De outro lado, um grupo de pesquisadores da Rockefeller University, especializados em aprendizagem vocal, que também trocam dados e idéias há vários anos. Há cerca de dois anos atrás, esses colegas - Erich Jarvis, norte-americano, Sidarta Ribeiro e Cláudio Mello, de nacionalidade brasileira - anunciaram o domínio de uma nova técnica que permite evidenciar a atividade cerebral ligada ao canto. Coube aos pesquisadores baseados no Brasil selecionar as espécies mais promissoras para tentar algum avanço no conhecimento da aprendizagem em aves. Assim foi elaborado um projeto cooperativo de pesquisa, que recebeu rapidamente as autoridades necessárias, sendo executado conjuntamente no Museu de Biologia Mello Leitão. A redação do trabalho deu-se em Caxambu, quando os autores se encontraram por ocasião da reunião anual da FeSBE, em agosto de 1999. O Brasil pode conquistar mais espaço no cenário científico internacional, não somente por grandes ações temáticas, como os estudos de Genoma ou de Biota, mas também investindo mais no apoio às iniciativas individuais de cooperação e às estruturas de registro da biodiversidade. A combinação da riqueza florística e faunística brasileira com a dinâmica dos seus órgãos de pesquisa representa um potencial a ser desenvolvido com sucesso. Jacques Vielliard é professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e criador do Laboratório de Bioacústica. (Jornal da Unicamp)
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