Ciências - Genoma

Conflito entre público e privado marca anúncio do genoma humano
The New York Times

 Microfotografia dos 23 pares de cromossomos da espécie humana, nos quais está contido todo o DNA do genoma sequenciado.Cerimônias e entrevistas coletivas em ao menos quatro países marcaram o lançamento hoje dos artigos científicos com as primeiras transcrições quase completas do código genético do homem. O brilho pretendido para as solenidades foi eclipsado pelas acusações entre os grupos de cientistas responsáveis pelo feito.

O tom das declarações ultrapassou o nível em geral comedido adotado por pesquisadores. John Sulston, líder do PGH (Projeto Genoma Humano) no Reino Unido, empregou o termo "criminoso" para qualificar, indiretamente, a política de acesso aos dados genéticos de seu concorrente.

Os artigos estão saindo esta semana nas revista "Nature" e "Science". São duas as equipes envolvidas, ambas com mais de 200 autores relacionados nos trabalhos: o PGH, um consórcio de instituições públicas de pesquisa de seis países (sob a liderança dos EUA), e a empresa Celera Genomics, do cientista-empresário norte-americano Craig Venter.

Venter é criticado pelos adversários da iniciativa pública por impor condições de acesso aos seus dados, condições essas aceitas pela revista norte-americana "Science". Para os cientistas do setor público, o genoma é uma "dádiva" para a humanidade e deve ser livremente acessível.

"O genoma humano é de propriedade internacional e pública. Isso é o que estamos celebrando hoje. Liberdade de informação e liberdade de acesso a essa informação", disse Sulston. "Teria sido criminoso impedir o acesso a essa informação."

Opinião semelhante à de Michael Dexter, diretor do Wellcome Trust (maior financiador do PGH no Reino Unido): "Ao manter o princípio do acesso livre e igual para todos, estamos ajudando a diminuir a lacuna entre países ocidentais ricos e colegas nas partes mais pobres do mundo".

Venter reagiu. "Nossos dados estão livremente disponíveis para cientistas de qualquer parte", disse à rede britânica BBC. "Não há restrições às descobertas ou à patenteabilidade ou à sua publicação. O que eles (cientistas) não podem fazer é levar nossos dados e tentar estabelecer um negócio para competir com a Celera, que pagou por isso usando seu próprio dinheiro."

Craig Venter, presidente da Celera e autor principal do estudo da "Science", disse que ele encontrou apenas 300 genes que não tinham equivalente no genoma do camundongo. Nessa base, ele disse esperar que o chimpanzé tenha quase o mesmo conjunto de genes que os humanos, embora muitos desses genes devam ter sequências de DNA variantes.

O estudo feito pelo Projeto Genoma Humano, que tem como autor principal Eric Lander, do Whitehead Institute, em Cambridge, EUA, causa igual dano à dignidade humana afirmando que 113 genes, e possivelmente muitos mais, foram emprestados diretamente de bactérias e incorporados no genoma humano.

O ambicioso projeto de decodificar a mensagem genômica começou em 1990 e está agora substancialmente completo, embora as versões do genoma de cada um dos estudos esteja cheio de buracos. Com tanto esforço e glória científica em jogo, cada equipe continua extremamente cética quanto a abordagem da outra e acredita que seu método levará a uma sequência mais exata.

De fato, as duas radicalmente diferentes estratégias acabaram, em grande parte, convergindo, conforme cada uma usou ou adaptou vantagens desenvolvidas pela outra.

Venter usou não apenas os pedaços de DNA decodificados pelo consórcio, mas também informações importantes geradas por um cientista do consórcio, Robert H. Waterston, da Universidade Washington em St. Louis.

O consórcio copiou, com atraso, duas das inovações de Venter, um método mais inteligente de ligar sequências de dados de DNA e a utilização intensiva de computadores para a montagem dos dados.

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