Ciências - Genoma

Decifrado o DNA do rato

Washington (AE-AP) - Cientistas anunciaram ontem que decifraram o código genético do rato, num passo que pode lançar uma luz sobre a biologia humana por meio de comparações com o DNA do ser humano.

O código genético (genoma) do rato é quase tão extenso quanto o do homem, com cerca de 3 bilhões de "letras", disse Mark Adams, da Celera Genomics, de Rockville, Maryland. A Celera ainda não começou a contar os genes do rato dentro do código, informou ele durante uma entrevista.

O código genético é uma seqüência contida na famosa estrutura de duas hélices do DNA. Algumas dessas seqüências criam os genes. Mas a função da maior parte delas é desconhecida.

A Celera comunicou que seus dados, que estarão à disposição de seus clientes, cobrem mais de 99% do genoma do rato. Um projeto separado, financiado pelo governo dos Estados Unidos e por algumas companhias privadas, deverá tornar cerca de 95% do código genético do rato disponível ao público em 1º de abril, afirmou Eric Lander, do Centro de Pesquisa do Genoma do Instituto Whitehead.

Os cientistas querem obter uma descrição do genoma dos ratos por diversas razões. Uma delas é a comparação com a recentemente divulgada descrição do código genético do ser humano. Ao observar as semelhanças e diferenças, os cientistas pretendem aprender mais sobre o DNA humano. Um outro objetivo, por exemplo, é identificar melhor qual trecho do DNA é responsável por regular a atividade dos genes.

Adams disse que o trabalho poderia auxiliar os pesquisadores a compreenderem as diferenças biológicas entre os dois animais. Ele cita como exemplo a possibilidade de novos tratamentos serem desenvolvidos se os cientistas descobrirem o motivo pelo qual um câncer comporta-se de forma diferente nos ratos e nos homens. De acordo com Adams, a Celera reuniu a maior parte dos blocos do código na ordem correta, mas o processo de organização ainda está em andamento. Mais "letras" de DNA estão sendo acrescentadas, garantiu.

Genética com futuro promissor

"Daqui a 30 anos, o transplante de genes será como o de fígado". A expectativa é do médico pediatra curitibano, especializado em genética humana molecular, Salmo Raskim. Com o importante passo que a ciência deu ontem - a publicação detalhada do mapa do código genético humano -, Raskim acredita que a medicina sofrerá grandes mudanças dentro de pouco tempo. "Hoje a medicina é totalmente terapêutica. Daqui a dez anos, isso deve mudar totalmente. Já terá como predizer se determinada pessoa desenvolverá o câncer, diabetes, ou outra doença", prevê.

Entre as novidades da conclusão do estudo é o reduzido número de genes: acreditava-se que o ser humano tinha cerca de 100 mil genes, mas esse número não chega a 40 mil. Ou seja, ele tem a mesma quantidade de genes que o milho, o dobro de uma mosca drosófila e um terço a mais que um verme nematóide.

Acreditando que em breve a medicina será essencialmente preventiva, Raskim chega a estipular prazo para as evoluções. "A um curto prazo (cinco anos, em média), será possível fazer um diagnóstico precoce. A médio (cerca de dez anos), será a vez do medicamento mais específico, com menos efeitos colaterais. Ou seja, o remédio será formulado considerando os genes das pessoas. Por último (entre 20 ou 30 anos), será possível viabilizar o tratamento ou a cura propriamente dita, colocando-se genes saudáveis nas células ou mesmo proteínas". Raskim lembra, no entanto, que se trata apenas de especulações.

Idealizador do laboratório Genetika, pioneiro no Brasil na realização de testes para doenças genéticas por DNA, Raskim conta que o avanço científico trará resultados positivos ao próprio Genetica em pouco tempo. Hoje o laboratório oferece testes para cerca de 400 doenças genéticas diferentes. Até o final do ano, ele pretende chegar a 800 testes diferentes.

Falta tecnologia

Uma vez desvendado o mapa do código genético humano, o que falta agora é recurso tecnológico. "O passo seguinte é desenvolver um sistema de automatização, para analisar os genes mais rápidos, em três ou quatro meses", diz Raskim. Apenas para concluir o mapa do genoma humano, cientistas de 18 países gastaram cerca de dez anos. (Lyrian Saiki)

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