Ciências - Astronáutica - 21/02/2001

Nasa prevê dificuldades para atingir Marte
ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - enviada especial da Folha a San Francisco

O genoma foi a estrela da reunião anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência, na sigla em inglês), que terminou ontem, mas viagens espaciais também sempre atraem um público fiel.

Estava lotado o auditório do seminário "Exploração Humana do Espaço". Cientistas e médicos da Nasa (agência espacial norte-americana) apresentaram os principais desafios de uma futura missão tripulada a Marte, que ainda não tem data definida, mas pode ocorrer em duas décadas (se a Nasa conseguir aprovação e verbas do Congresso dos EUA). A viagem duraria cerca de 30 meses, disse John Charles, do Centro Espacial Johnson. Seriam 6 meses para ir, 18 meses no planeta e seis meses para voltar.

Por que Marte? Christopher McKay, do Centro de Pesquisa Ames, na Califórnia, abordou um ponto em geral deixado de lado: Por que ir a Marte? Marte é um planeta frio e aparentemente morto. Mas existem indicações de que, há 3,5 bilhões de anos, havia muita água lá. Também teria havido atividade vulcânica e uma atmosfera mais densa que hoje, composta basicamente por dióxido de carbono. "Nesse tempo, Marte era muito parecido com a Terra. Como nos consideramos o que há de mais interessante no Sistema Solar, quando vemos algo que se parece conosco queremos estudá-lo."

Para ele, a questão principal é descobrir se houve em Marte uma segunda gênese da vida. Isto é, se a forma de vida que teria se originado lá segue tendência evolutiva diferente da nossa. "Se for a mesma vida, levada de Marte para cá ou vice-versa, não avançaremos muito na compreensão dela. Caso seja um tipo totalmente diferente, isso pode indicar que o Universo está cheio de vida, surgida em lugares antes considerados inóspitos." Para comprovar alguma dessas possibilidades, será preciso obter organismos não-fossilizados (congelados, por exemplo), para decifrar seu "código genético".

Deterioração do corpo

Uma das maiores preocupações de uma missão desse tipo é a saúde dos astronautas. "A imagem da chegada do cosmonauta russo Sergei Krikalev, que passou mais de 400 dias no espaço, foi marcante. Ele é um homem grande, forte, mas estava totalmente debilitado", afirmou Laurence Young, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica Espacial.

Young discutiu os problemas de saúde já conhecidos para permanências relativamente curtas no espaço. Em primeiro lugar, logo após a decolagem, 90% dos astronautas sofrem de enjôo por falta de orientação espacial.

Assim que o astronauta começa a flutuar pela nave, ele perde o sentido de "em cima" e "embaixo", que de fato não existem no espaço, mas o cérebro está programado dessa forma, o que causa vômitos e desorientação.

Outro problema que logo aparece é inchaço no rosto. Sem a gravidade, o fluido corporal que geralmente se acumula na parte inferior do corpo acaba migrando para o abdome e o peito. O corpo logo começa a combater o problema reduzindo a sede.

Com a falta de peso do corpo, os músculos sofrem redução e os ossos começam a se deteriorar _são tecidos vivos em constante renovação, que é freada_ a uma taxa de 1% ao mês. Numa viagem longa, isso se torna intolerável.

Mais preocupantes ainda são as consequências do confinamento da equipe de seis ou oito tripulantes em um espaço pequeno por um período enorme, sob estresse.

Uma forma de reverter vários dos problemas é gravidade artificial, descrita pelo escritor de ficção científica Arthur C. Clarke em "2001: Uma Odisséia no Espaço".

"Uma nave em um grande eixo de rotação é uma idéia romântica, mas totalmente impraticável", afirmou Young. O laboratório do pesquisador está desenvolvendo mecanismos com pequenos eixos de rotação, que poderiam ser usadas como cápsulas para dormir. "O principal problema é que os astronautas saem dele totalmente desorientados", disse Young.

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