Ciências - Arqueologia - 16/02/2001

Equipe acha tesouro arqueológico em túmulos do Peru

Folha de S.Paulo

Depois de 35 anos escavando vestígios de civilizações perdidas no Peru, o arqueólogo norte-americano Christopher Donnan, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, achava que não se surpreenderia com mais nada. Até encontrar, numa pirâmide do norte do país, três túmulos cheios de ouro e prata que ajudarão a entender melhor a cultura mochica, uma das mais avançadas das Américas, extinta há 1.300 anos.

Os túmulos pertenciam a membros da nobreza mochica (pronuncia-se "motchica") e foram achados numa "huaca" (pirâmide) de 32 metros de altura chamada Dos Cabezas, perto de Chiclayo, na costa norte do país.

"Nós nunca tínhamos visto tamanha quantidade e qualidade de cerâmicas, têxteis e ourivesaria", disse Donnan. Segundo ele, os túmulos só perdem em riqueza para dois outros, descobertos no final da década de 80 no sítio de Sipán, ao norte de Dos Cabezas.

"Sem dúvida se trata da descoberta mais importante já feita desde o Senhor de Sipán", disse à Folha o arqueólogo peruano Walter Alva, do Museo de la Nación, em Lima, referindo-se ao túmulo de um soberano mochica escavado por ele em 1987 e considerado o mais rico das Américas.

Raridade

A descoberta da equipe de Donnan é resultado de três anos de escavações, patrocinadas pela National Geographic Society. Ela será publicada na edição de março da revista "National Geographic".

O que torna os novos túmulos tão raros, em primeiro lugar, é a presença de peças de ouro e prata. Apesar de a ourivesaria mochica ter sido altamente desenvolvida, apenas 15 dos 350 túmulos já descobertos dessa civilização continham ouro ou prata -exclusividade dos pertences funerários da nobreza. As tumbas escavadas em Dos Cabezas possuem ambos.

Outra raridade está na altura dos esqueletos encontrados. Com 1,80 m, eles ultrapassam até mesmo os dos nobres mochicas, já normalmente mais altos que a média da população. "Acreditamos que sejam os indivíduos mais altos já escavados na América do Sul", afirmou Donnan.

Para Alva, a maior importância da descoberta está no fato de os túmulos pertencerem à chamada fase Moche 1 -o período inicial da civilização mochica (a partir do ano 50 d.C.), quando esse povo começou a se organizar politicamente em cidades-estado e quando os chamados senhores mochicas ascenderam ao poder.

O período marca uma mudança fundamental, pois consolida a primeira sociedade estatal pré-colombiana do continente, 14 séculos antes do império inca.

"Nunca se havia encontrado uma tumba real desse período", disse Alva. "A descoberta de Donnan preenche um vazio que era necessário conhecer. Agora poderemos saber melhor como evoluiu o sistema político mochica", afirmou o arqueólogo.

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