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MATANÇA
DE ONÇA-PINTADA POPULAÇÃO
DIZIMADA Policiamento insuficiente e consequente ação de caçadores e fazendeiros, no Parque Nacional do Iguaçu, reduz população de felinos, que hoje é de cerca de 60 animais para uma capacidade quase três vezes maior na área de preservação; fim do predador resultará na desestruturação da fauna. As onças-pintadas podem desaparecer do Parque Nacional do Iguaçu num prazo de cinco anos, caso seja mantida a média anual de 10 mortes provocadas pelo homem nos últimos sete anos, registrada por pesquisadores e moradores vizinhos da reserva. A extinção vai resultar na quebra da cadeia natural entre os animais existentes na unidade, que abriga as Cataratas do Iguaçu. A primeira consequência será o crescimento desordenado dos animais que são caçados pelas onças como alimentos.
O risco de extinção da onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu foi diagnosticado há 11 anos, quando o Projeto Carnívoros do Iguaçu foi criado. Cálculos dos pesquisadores revelaram, em março de 1990, que a dimensão da reserva tem um potencial para abrigar 170 onças-pintadas. Mas já naquela época estimavam que a população da espécie não chegaria a 150 animais. Apesar de ser impossível quantificar o número atual, os biólogos acreditam que a população não passe de 60 animais. Para o gerente do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (Cenap) – com sede em Sorocaba (SP) –, Peter Crawshaw, criador do Projeto Carnívoros do Iguaçu, essa ‘‘é uma quantia otimista até demais’’. O Cenap é uma unidade administrativa do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os levantamentos indicam que de 1994 até o ano passado, 74 onças-pintadas foram mortas no Parque Nacional do Iguaçu. Nesse número estão descartadas as mortes naturais e também ficam de fora os felinos que são mortos mas não encontrados. O balanço revela que uma média de 10 onças têm sido mortas por ano nos últimos sete anos, embora o parque seja a maior área protegida da Bacia do Prata.
Desde a sua implantação, em 1990, foram monitorados 70 animais, entre onças-pintadas, jaguatiricas, cachorros-do-mato, gatos mouriscos e quatis. Do total, 20 são onças-pintadas e 18 delas (90%) foram mortas por caçadores e fazendeiros. ‘‘Somente de abril de 1990 a dezembro de 1994 usei nove animais no meu estudo. Mas num período de dois anos, nenhuma das nove onças-pintadas estava viva’’, relata Peter Crawshaw.
Na opinião de Peter Crawshaw, a população da Panthaera onca está se aproximando de um número crítico, do qual pode não haver retorno, por causa do empobrecimento genético. ‘‘Os predadores de topo de cadeia atuam como fator de controle sobre tudo que vem abaixo deles. É como se fosse um filtro, que força todas as espécies a melhorarem geneticamente. A perda da onça-pintada é irreparável’’, afirma o pesquisador. A solução para eliminar o perigo de extinção, ou adiar seu prazo, como o próprio pesquisador alerta, é aumentar a fiscalização na reserva, implantando um programa repressivo para acabar com a matança de onças. ‘‘Tem que levar o assunto a sério, para pelo menos segurar essa tendência drástica. A próxima etapa é partir para a conscientização dos fazendeiros, filhos de fazendeiros, visitantes, caçadores e, enfim, da comunidade em geral.’’ Iguaçu ainda tem a maior população da espécie no Sul A extinção da onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu pode representar também a eliminação da espécie nas unidades de conservação da região Sul do Brasil. A reserva florestal é a única a abrigar uma população razoável do felino na região. As outras unidades tem um número insignificante de onça-pintada, segundo o gerente do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (Cenap), Peter Crawshaw. ‘‘No Sul do País não existe outra unidade tão importante para a conservação da onça-pintada’’, destaca. Ele informa, porém, que o Parque Florestal Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, divisa com a Argentina, abriga alguns desses animais. ‘‘O Pantanal e a Amazônia ainda têm populações significativas, mas, no Sul, o Iguaçu era a unidade mais expressiva’’, compara. (A.P.)
"Tem muito caçador entrando na floresta" O Projeto Carnívoros do Iguaçu foi criado em março de 1990 pelo biólogo Peter Crashwaw, 49 anos. Natural de São Vicente (SP), o pesquisador morou 6 anos em Foz do Iguaçu (de abril de 1990 a fevereiro de 1996). Durante este período, coletou dados para sua tese de doutorado pela Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, cujo enfoque é a comparação entre a ecologia e a probabilidade de conservação, a partir da comparação da onça-pintada com a jaguatirica. O trabalho deu origem ao Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (Cenap), ‘‘através de uma sequência lógica do estudo’’, conforme destaca o biólogo. Em entrevista para a Folha, Peter Crashwaw alerta sobre o diagnóstico de sua pesquisa, que aponta para o risco de extinção das onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu. (A.P.) Folha
– O senhor iniciou o estudo sobre as onças-pintadas com que
finalidade? Folha
– Como a situação chegou a este ponto? Folha
– Quais são as presas da onça-pintada? Folha
– O que pode acontecer se as onças-pintadas forem extintas? Fita apreendida pela Polícia Federal mostra cenas chocantes proporcionadas por caçadores
Uma fita de vídeo apreendida em setembro de 1999 mostra cenas chocantes proporcinadas pela caça ilegal no Parque Nacional do Iguaçu. Nas imagens, caçadores extraem a pele de uma onça-pintada, cujo material é usado como troféu. A Polícia Federal encontrou a fita num depósito de mercadorias contrabandeadas no município de Medianeira, localizado a 60 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu e vizinho da reserva florestal. Foram detidos na oportunidade Fabiano Boito, 24 anos, sua mãe, a comerciante Maria de Lourdes Locks Boito, 51 anos, e três funcionários da fazenda do pecuarista Nilton Boito, localizada à margem do parque, no município de Céu Azul. Fabiano aparece nas imagens ajudando três funcionários da fazenda a retirarem a pele da onça, de dois metros de comprimento. Todos alegaram que tinham encontrado o animal morto. O caso continua em investigação. Os envolvidos foram liberados depois de prestarem depoimentos e serem multados em R$ 4,9 mil por crime de caça em unidade de conservação. Os acusados estão respondendo processo em liberdade. (A.P.) Grau de parentesco próximo vai refletir na reprodução A população de onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu, calculda em 60, está perto do limite denominado cerco genético. Biólogos estão prevendo que, se o número chegar a 50, os felinos terão um grau de parentesco próximo, dificultando a reprodução da espécie quando começarem a ocorrer cruzamentos entre si. Os animais podem nascer estéreis, perder resistência garantida pela heterogeneidade, além de possibitar a propagação de doenças letais. ‘‘Nós ainda temos sorte, que gera um pequeno otimismo, pelo fato do Parque Nacional do Iguaçu estar conectado ao Parque Nacional do Iguazú (no lado Argentino). Essa conectividade garante, por pelo menos um determinado tempo, que não haverá um empobrecimento genético’’, contrapõe o biólogo Peter Crashwaw. Ele informa que, em condições naturais, os predadores têm uma vida média entre 10 e 14 anos de idade. Entretanto, a ação de caçadores e fazendeiros reduzem a possibilidade desses felinos morrerem naturalmente, o que interfere na reprodução da espécie devido ao menor tempo de vida. A onça-pintada gera, a cada ninhada, de um a dois filhotes. Até a próxima prenhez, a fêma demora mais dois anos e meio para recuperar-se. (A.P.) Matéria especial publicada na Folha do Paraná em 11/03/2001
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