MATANÇA DE ONÇA-PINTADA
Homem condena animal à extinção
Alexandre Palmar - De Foz do Iguaçu

POPULAÇÃO DIZIMADA
Pesquisador observa feto de onça-pintada retirado de fêmea morta; no início da década de 90 existiam no Parque do Iguaçu cerca de 150 animais da espécie Pesquisador observa feto de onça-pintada retirado de fêmea morta; no início da década de 90 existiam no Parque do Iguaçu cerca de 150 animais da espécie

Policiamento insuficiente e consequente ação de caçadores e fazendeiros, no Parque Nacional do Iguaçu, reduz população de felinos, que hoje é de cerca de 60 animais para uma capacidade quase três vezes maior na área de preservação; fim do predador resultará na desestruturação da fauna.

As onças-pintadas podem desaparecer do Parque Nacional do Iguaçu num prazo de cinco anos, caso seja mantida a média anual de 10 mortes provocadas pelo homem nos últimos sete anos, registrada por pesquisadores e moradores vizinhos da reserva. A extinção vai resultar na quebra da cadeia natural entre os animais existentes na unidade, que abriga as Cataratas do Iguaçu. A primeira consequência será o crescimento desordenado dos animais que são caçados pelas onças como alimentos.

A onça é a maior predadora das 10 espécies de animais encontrados no parque. Sem a Panthaera onca (nome científico), as presas que servem de alimento para ela – capivara, paca e tatu, entre outras – terão condições de se reproduzirem com mais facilidade, ocasionando um aumento de sua população. Quando isso acontecer, aquele que dominar o território terá mais facilidade para matar quem está abaixo no ciclo de alimentação. No Brasil existem 26 espécies de carnívoros terrestres. Elas estão divididas em quatro famílias: felídeos (onças e gatos-do-mato são os principais representantes); canídeos (lobo guará e cachorro-do-mato são os principais representantes); mustelídeos (ariranha e lontra são os principais representantes) e procionídeos (quati e guaxinim são os principais representantes).

O risco de extinção da onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu foi diagnosticado há 11 anos, quando o Projeto Carnívoros do Iguaçu foi criado. Cálculos dos pesquisadores revelaram, em março de 1990, que a dimensão da reserva tem um potencial para abrigar 170 onças-pintadas. Mas já naquela época estimavam que a população da espécie não chegaria a 150 animais. Apesar de ser impossível quantificar o número atual, os biólogos acreditam que a população não passe de 60 animais.

Para o gerente do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (Cenap) – com sede em Sorocaba (SP) –, Peter Crawshaw, criador do Projeto Carnívoros do Iguaçu, essa ‘‘é uma quantia otimista até demais’’. O Cenap é uma unidade administrativa do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Os levantamentos indicam que de 1994 até o ano passado, 74 onças-pintadas foram mortas no Parque Nacional do Iguaçu. Nesse número estão descartadas as mortes naturais e também ficam de fora os felinos que são mortos mas não encontrados. O balanço revela que uma média de 10 onças têm sido mortas por ano nos últimos sete anos, embora o parque seja a maior área protegida da Bacia do Prata.

O Projeto Carnívoros do Iguaçu – pioneiro no estudo de carnívoros em unidades de conservação no Brasil e apontado como uma referência internacional para os estudos de ecologia de mamíferos –, revela números ainda mais preocupantes, que levam realmente à possibilidade de extinção da espécie.

Desde a sua implantação, em 1990, foram monitorados 70 animais, entre onças-pintadas, jaguatiricas, cachorros-do-mato, gatos mouriscos e quatis. Do total, 20 são onças-pintadas e 18 delas (90%) foram mortas por caçadores e fazendeiros. ‘‘Somente de abril de 1990 a dezembro de 1994 usei nove animais no meu estudo. Mas num período de dois anos, nenhuma das nove onças-pintadas estava viva’’, relata Peter Crawshaw.

Outro indicativo que reforça o risco de extinção da espécie no Parque Nacional do Iguaçu é o fato das onças-pardas serem encontradas com mais frequência que as pintadas, na unidade. ‘‘A pintada é dominante sobre a parda. Onde tem bastante pintada tem pouca parda. A mudança significa que ela está tomando posse do território deixado pela onça-pintada’’, explica o biólogo, que baseou sua tese de doutorado, apresentada na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, nos estudos da fauna do Parque Nacional do Iguaçu.

Na opinião de Peter Crawshaw, a população da Panthaera onca está se aproximando de um número crítico, do qual pode não haver retorno, por causa do empobrecimento genético. ‘‘Os predadores de topo de cadeia atuam como fator de controle sobre tudo que vem abaixo deles. É como se fosse um filtro, que força todas as espécies a melhorarem geneticamente. A perda da onça-pintada é irreparável’’, afirma o pesquisador.

A solução para eliminar o perigo de extinção, ou adiar seu prazo, como o próprio pesquisador alerta, é aumentar a fiscalização na reserva, implantando um programa repressivo para acabar com a matança de onças. ‘‘Tem que levar o assunto a sério, para pelo menos segurar essa tendência drástica. A próxima etapa é partir para a conscientização dos fazendeiros, filhos de fazendeiros, visitantes, caçadores e, enfim, da comunidade em geral.’’

Iguaçu ainda tem a maior população da espécie no Sul

 A extinção da onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu pode representar também a eliminação da espécie nas unidades de conservação da região Sul do Brasil. A reserva florestal é a única a abrigar uma população razoável do felino na região. As outras unidades tem um número insignificante de onça-pintada, segundo o gerente do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (Cenap), Peter Crawshaw.

‘‘No Sul do País não existe outra unidade tão importante para a conservação da onça-pintada’’, destaca. Ele informa, porém, que o Parque Florestal Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, divisa com a Argentina, abriga alguns desses animais. ‘‘O Pantanal e a Amazônia ainda têm populações significativas, mas, no Sul, o Iguaçu era a unidade mais expressiva’’, compara. (A.P.)

Peter Crashwaw: ‘‘O pessoal se julga no direito de matar porque os animais estão invadindo as propriedades’’Arquivo Folha/Ney de Souza
Peter Crashwaw: ‘‘O pessoal se julga no direito de matar porque os animais estão invadindo as propriedades’’

 "Tem muito caçador entrando na floresta"

O Projeto Carnívoros do Iguaçu foi criado em março de 1990 pelo biólogo Peter Crashwaw, 49 anos. Natural de São Vicente (SP), o pesquisador morou 6 anos em Foz do Iguaçu (de abril de 1990 a fevereiro de 1996). Durante este período, coletou dados para sua tese de doutorado pela Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, cujo enfoque é a comparação entre a ecologia e a probabilidade de conservação, a partir da comparação da onça-pintada com a jaguatirica. O trabalho deu origem ao Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (Cenap), ‘‘através de uma sequência lógica do estudo’’, conforme destaca o biólogo. Em entrevista para a Folha, Peter Crashwaw alerta sobre o diagnóstico de sua pesquisa, que aponta para o risco de extinção das onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu. (A.P.)

Folha – O senhor iniciou o estudo sobre as onças-pintadas com que finalidade?
Peter Crashwaw – A idéia era fazer uma comparação entre a ecologia e a probabilidade de conservação, comparando a onça-pintada e a jaguatirica. Quer dizer, dois felinos pintados de tamanhos diferentes. Terminei a tese em 1995. Uma das conclusões mais chocantes do trabalho foi que a onça-pintada está, sim, com risco de desaparecer do Parque Nacional do Iguaçu. Se continuar o ritmo que tem estado nos últimos anos, provavelmente em mais cinco anos não vai ter mais nenhum exemplar da espécie.

Folha – Como a situação chegou a este ponto?
Crashwaw – As colônias italianas ao redor do parque têm uma cultura muito grande de caça. Também tem muito caçador entrando na floresta. Como a fiscalização está bem abaixo do que seria o mínimo necessário, o pessoal se sente à vontade para entrar e sair quando bem entende. Então o que acontece? Eles caçam as espécies cinegéticas, consideradas as espécies nobres, que são as principais presas da onça-pintada.

Folha – Quais são as presas da onça-pintada?
Crashwaw – A queixada é a principal. Lembro que quando morava no parque havia um grupo de 80 queixadas que ficava ao redor da minha casa. Os caçadores ajudaram a dizimar as queixadas, auxiliados por fazendeiros que se sentiam prejudicados quando elas invadiam as plantações de milho. Com isso diminui os alimentos para a onça-pintada dentro do parque, que precisou buscar alimentos nos animais domésticos das fazendas. Então o pessoal se julga no direito de matar porque os animais estão invadindo as propriedades. Para complicar, os caçadores não deixam de atirar nas onças-pintadas quando têm uma oportunidade.

Folha – O que pode acontecer se as onças-pintadas forem extintas?
Crashwaw – A destruturação da fauna no Parque Nacional do Iguaçu. As presas do felino, como o cateto, a capivara, a anta, a paca, cotia, tatu tendem a superlotar o parque, mudando a estrutura da cadeia alimentar. Isso já foi verificado nos Estados Unidos. Os norte-americanos queriam aumentar a população de veados, para serem caçados pelas pessoas. No começo deste século, eles chegaram a extinguir os pumas (predadores dos veados). Agora, verificado o erro, houve a reviravolta com a conscientização, com o fortalecimento da ecologia.

Fita apreendida pela Polícia Federal mostra cenas chocantes proporcionadas por caçadores

Após extraída, pele de onça-pintada é mostrada por caçadores Após extraída, pele de onça-pintada é mostrada por caçadores Pele é exibida como troféu

Uma fita de vídeo apreendida em setembro de 1999 mostra cenas chocantes proporcinadas pela caça ilegal no Parque Nacional do Iguaçu. Nas imagens, caçadores extraem a pele de uma onça-pintada, cujo material é usado como troféu. A Polícia Federal encontrou a fita num depósito de mercadorias contrabandeadas no município de Medianeira, localizado a 60 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu e vizinho da reserva florestal.

Foram detidos na oportunidade Fabiano Boito, 24 anos, sua mãe, a comerciante Maria de Lourdes Locks Boito, 51 anos, e três funcionários da fazenda do pecuarista Nilton Boito, localizada à margem do parque, no município de Céu Azul. Fabiano aparece nas imagens ajudando três funcionários da fazenda a retirarem a pele da onça, de dois metros de comprimento.

Todos alegaram que tinham encontrado o animal morto. O caso continua em investigação. Os envolvidos foram liberados depois de prestarem depoimentos e serem multados em R$ 4,9 mil por crime de caça em unidade de conservação. Os acusados estão respondendo processo em liberdade. (A.P.)

Grau de parentesco próximo vai refletir na reprodução

A população de onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu, calculda em 60, está perto do limite denominado cerco genético. Biólogos estão prevendo que, se o número chegar a 50, os felinos terão um grau de parentesco próximo, dificultando a reprodução da espécie quando começarem a ocorrer cruzamentos entre si. Os animais podem nascer estéreis, perder resistência garantida pela heterogeneidade, além de possibitar a propagação de doenças letais.

‘‘Nós ainda temos sorte, que gera um pequeno otimismo, pelo fato do Parque Nacional do Iguaçu estar conectado ao Parque Nacional do Iguazú (no lado Argentino). Essa conectividade garante, por pelo menos um determinado tempo, que não haverá um empobrecimento genético’’, contrapõe o biólogo Peter Crashwaw.

Ele informa que, em condições naturais, os predadores têm uma vida média entre 10 e 14 anos de idade. Entretanto, a ação de caçadores e fazendeiros reduzem a possibilidade desses felinos morrerem naturalmente, o que interfere na reprodução da espécie devido ao menor tempo de vida. A onça-pintada gera, a cada ninhada, de um a dois filhotes. Até a próxima prenhez, a fêma demora mais dois anos e meio para recuperar-se. (A.P.)

Matéria especial publicada na Folha do Paraná em 11/03/2001

 

 

 

 

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