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É o maior desastre ecológico do Paraná 18/Julho/2000. Texto original de: Lyrian Saiki Jornal O ESTADO DO PARANÁ Fotos: Internet e local.
O vazamento de cerca de 4 milhões de litros de petróleo no último domingo (16 de julho de 2000) pode gerar o pior desastre ambiental da história do Paraná. O acidente aconteceu na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras, localizada no município de Araucária, a 24 quilômetros de Curitiba. É o segundo acidente do ano envolvendo refinarias da Petrobras e o maior dos últimos 26 anos. A mancha de óleo atingiu o rio Barigüi, afluente do Rio Iguaçu e o próprio Iguaçu, num raio de 15 quilômetros até a tarde de ontem, de acordo com a Petrobrás.
Quatro barreiras foram colocadas ao longo do rio na tentativa de controlar o problema: na própria refinaria, Ponte de Araucária, Ponte Velha e Guajuvilha. Outras quatros barreiras, em General Carneiro, Balsa Nova, Porto Amazonas e São Mateus do Sul, também já estão sendo providenciadas de acordo com o diretor do meio ambiente da Petrobras, Irani Varela. "Essas quatro barreiras são apenas por precaução", lembrou. Ele acredita que a mancha atinja um raio máximo de 20 quilômetros. Trabalho 24 horas
Por se tratar de substância inflamável (hidrocarboneto), às famílias "ribeirinhas"- que moram ao longo do rio - estão sendo orientadas a não utilizar materiais explosivos como cigarros ou fogos de artifício próximo ao local atingido. Além disso, a orientação é que não tenham contato com o óleo, o que pode ocasionar principalmente irritação à pele. Segundo Albano Gonçalves, da Petrobras, um médico veio do Rio de Janeiro para tratar de eventuais casos de emergência. Para Sarney Filho, foi leviandade da Petrobras O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, não poupou críticas à Petrobras pelo vazamento de óleo no Rio Iguaçu, depois de sobrevoar a área atingida ontem à tarde. "Isso mostra que a Petrobras não estava preparada, apesar do acidente na Baía da Guanabara. É muito ruim para a imagem da empresa, e pior ainda para o meio ambiente", afirmou. "Uma empresa desse porte não tem o direito de cometer esse tipo de leviandade", completou. Sarney Filho disse ainda que o fato de o acidente ter acontecido num rio é um fator complicador para a contenção da mancha. Ele observou que a dimensão dos danos ambientais somente será conhecida após a conclusão dos laudos técnicos, mas ressaltou que caberá à Petrobras toda a reparação do dano. "Estamos dispostos a ir às últimas conseqüências na responsabilização. Queremos que os danos ambientais sejam os menores possíveis e que as empresas saibam que o País tem uma legislação ambiental dura", enfatizou. "É o maior acidente ambiental do Brasil em rios, e precisamos unir os esforços do governo estadual e da Petrobras para estancar a caminhada da mancha", que, segundo o ministro, já ultrapassava vinte quilômetros. Depois de sobrevoar a área de helicóptero, Sarney Filho reuniu-se com o governador Jaime Lerner, no Palácio Iguaçu. Ele pediu a participação do Ministério Público na investigação das causas do acidente e sugeriu a formação de uma comissão mista, formada por integrantes do governo estadual, Ministério do Meio Ambiente, sociedade e ONGs, para auxiliar na solução do acidente. O governo federal prometeu enviar hoje técnicos do Ibama para acompanhar os trabalhos no Rio Iguaçu.
Vazamento pode ter
durado duas horas O duto onde aconteceu o rompimento tem 23 anos. De acordo com Gonçalves, por ser feito em aço, ele não pode ser considerado velho. O duto foi monitorado pela última vez no final do ano passado. Gonçalves informou ainda que apenas um terço dos dutos da Repar fazem medição por satélite, enquanto o restante é feito manualmente. "Desde a década de 70, a manutenção é feita a cada duas horas. Em alguns dutos, é impossível fazer isso num prazo menor", disse Gonçalves, referindo-se à possibilidade de se diminuir este tempo pela metade, por exemplo, o que também poderia reduzir as conseqüências. Multa de R$ 50 milhões
A multa do que pode ser um dos maiores acidentes ambientais do Paraná já tem um valor: R$ 50 milhões, aplicado pelo IAP. Já as conseqüências do impacto ambiental ainda devem levar um tempo para serem verificadas. A ambientalista Tereza Urban, representante do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) no Sul, afirma que os problemas são "de grande monta". "Pode haver a mortandade de várias espécies que vivem no rio. Além disso, as várzeas podem trazer problemas à fauna terrestre, que depende da água do rio para sobreviver", disse Tereza. Na região, vivem animais como capivaras, tatus, antas, além de centenas de aves e peixes. Para o diretor da organização Xama, João Bello, no entanto, as conseqüências já começaram. "Tenho informações de que centenas de animais já morreram", garantiu. Ele reclama que a Repar não conta com plano de emergência e que vai cobrar, juntamente com outras organizações, a análise de risco e o licenciamento ambiental da empresa. "Achamos que agora é hora de achar o culpado sim", enfatizou, rebatendo o discurso do governador Jaime Lerner, que afirmou ser agora o momento de controlar o problema e não buscar as causas. Também preocupado com o acidente, o deputado federal Fernando Gabeira, membro da Comissão do Meio Ambiente no Congresso Nacional, chegou ontem a Curitiba. "Nossa principal preocupação é reduzir os danos, fazer barreiras. A segunda é a população "ribeirinha", disse. Segundo ele, existe um dispositivo (software) através do qual é possível constatar problemas de vazamento. "É um dispositivo relativamente barato. Mas parece que a Petrobras ainda não quer gastar com isso", criticou. (LS) Vazamento ameaça
cataratas A Petrobras informou que o desastre ecológico está avançando lentamente e promete agir com rapidez para amenizar seus impactos. Segundo informações da refinadora ao Ibama em Foz, em cinco horas, a mancha de óleo avançou dez quilômetros. De acordo com estudos preliminares da empresa, seriam necessários pelos menos dez dias para o vazamento chegar à região. O chefe-interino do Parque Nacional do Iguaçu, Apolônio Nelson Rodrigues, vêm mantendo contatos com técnicos da Petrobras e do Ibama para avaliar a situação e só hoje deve receber um diagnóstico final sobre um possível avanço do vazamento na região. Ontem mesmo, o Ibama já pediu apoio da Itaipu, no caso seja necessário, de montar uma operação de emergência para impedir o avanço do vazamento na região. Isso seria feito por meio de barreiras montadas no Rio Iguaçu, em Capanema. Turismo e acidente diplomático O Ibama acredita que as hidrelétricas localizadas ao longo do Rio Iguaçu podem servir como barreira para conter a mancha de óleo e impedir sua chegada até as Cataratas. Segundo Apolônio, o incidente ecológico poderia comprometer toda a ictiofauna da região. Além do prejuízo para o meio-ambiente, o incidente causaria sérios danos para o turismo local. Uma das primeiras medidas seria a interdição do Parque Nacional do Iguaçu, que abriga as Cataratas do Iguaçu, a maior atração turística do Paraná. O vazamento poderia causar ainda um acidente diplomático entre o Brasil e os países vizinhos, já que o Iguaçu deságua no Rio Paraná seguindo o curso entre o Paraguai e a Argentina. Greca pede indenização Ontem, o deputado Rafael Greca entrou com um pedido de indenização na Justiça contra a Petrobras pelos prejuízos causados ao meio-ambiente do Paraná. Greca pediu que o valor seja o mesmo concedido ao governo do Rio de Janeiro, por ocasião de um vazamento de óleo da refinaria na Baía de Guanabara. Por meio de uma nota, Greca disse que o "vazamento ocorrido na região dos vales dos rios Barigüi e Iguaçu é uma ameaça forte à poluição do nosso cartão postal internacional, que são as Cataratas do Iguaçu. Para o deputado "isso não pode ficar sem punição". concluiu após encaminhar cópia do protocolo e correspondência ao ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho. (Patrícia Iunovich) "Senti um cheiro forte" Segundo o comerciante Pedro Rodrigues, 56 anos, que mora a quase cem metros do Rio Iguaçu, próximo à Ponte Velha (em Araucária), o principal indício de vazamento do petróleo era o cheiro. "Depois das 11 (da noite), senti um cheiro forte de gás e óleo. Fiquei com medo e até desliguei as luzes com medo de explosão", conta Rodrigues. Já a dona de casa Roseli de Fátima da Silva, que também mora próximo ao rio, só soube do vazamento de madrugada, quando chegaram os caminhões da Petrobras. "Vi um movimento grande e fui perguntar o que era", lembra. João Fernandes de Miranda também só soube do acidente ontem pela manhã. Nenhum deles, segundo depoimentos, receberam orientações da Defesa Civil para evitar contato com a mancha de óleo. "Ninguém passou aqui para dizer alguma coisa sobre isso", revelou João Fernandes. (LS) Sanepar diz que não compromete A Sanepar comunicou ontem que o vazamento de óleo da Refinaria da Petrobras, em Araucária, que atingiu o Rio Iguaçu, na tarde de domingo, não comprometeu os mananciais que abastecem a Grande Curitiba. O vazamento ocorreu depois da captação do Rio Iguaçu, em Curitiba, e não coloca em risco o abastecimento da população. A próxima captação da Sanepar abastecida pelo Rio Iguaçu fica em União da Vitória. Segundo os técnicos da Petrobras, todas as providências estão sendo tomadas para dissolver a mancha e evitar que ela se desloque pelo Rio Iguaçu até União da Vitória. Segundo cálculos dos técnicos, a mancha levaria de dois a três dias para chegar ao município. Até lá, a Petrobras garante que o problema estará solucionado. ISO 14.001 não garantiu a qualidade Há menos de três semanas, a Petrobras/Repar recebia a certificação ISO 14.001 e BS 8800, "como reconhecimento internacional como empresa que equilibra as necessidades de obtenção de lucro e resultado com o atendimento da qualidade de vida de empregados e comunidade através da proteção do meio ambiente de práticas industriais seguras", como atestou o superintendente da Repar Luis Eduardo Valente Moreira, na cerimônia no último dia 27. "O certificado não cria uma proteção, não evita acidentes. É apenas uma avaliação de riscos, onde são verificados o plano de contingência (bem estabelecido), aprovadas as simulações", defendeu Valente ontem. (LS)
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