Óleo vazou por falha humana e técnica

21/Julho/2000

Lyrian Saiki - jornal O ESTADO DO Paraná

 

Vazamento PetrobrasHouve falha humana e técnica na operação que provocou o derrame de óleo cru nos rios Barigüi e Iguaçu no último domingo. Foi essa a conclusão preliminar do relatório elaborado pela comissão de sindicância, divulgado ontem pela direção da Petrobras. O vazamento teria acontecido porque a válvula do tanque 4108 da Repar (em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba), onde seria estocado o óleo que vinha de São Francisco do Sul (SC), não foi aberta pelo funcionário responsável por esta função. O óleo, portanto, ficou retido nos dutos. Não bastasse este erro, os equipamentos da Repar apresentavam outro problema: a válvula de controle que fica junto à linha de expansão - por onde passa o óleo - havia sido retirada, já que a empresa passa por um processo de automação e a válvula foi substituída, temporariamente, por um tampão.

O vazamento aconteceu no setor de transferência e estocagem, onde trabalham entre 8 e 10 funcionários, segundo a Petrobras. De acordo com o gerente geral de operações de refino da empresa, Elias Menezes de Oliveira, no dia 10 de junho a válvula foi substituída por um tampão cilíndrico, impedindo, portanto, que o óleo passasse pela junta de expansão. "Como a válvula na entrada do tanque estava fechada, a pressão do líquido fez com que a junta de expansão (que cede conforme a quantidade de óleo que passa) estourasse", explicou Elias. "Foi a conjugação dos dois fatores", acrescentou. Segundo ele, no entanto, o método utilizado é seguro e não traria problemas, caso o tanque estivesse recebendo normalmente o óleo.

Condição especial

"A junta de expansão não é comum. Ela foi feita por uma condição especial", comentou Elias. A junta teria sido instalada devido ao relevo onde está instalada a Repar, como um controle de pressão, para que o óleo chegue ao tanque pela tubulação. No entanto, de acordo com o diretor de refino da Petrobras, Eden Aquino, descobriu-se que a junta não teria mais motivo de permanecer instalada. "Ela já até foi retirada", disse.

Caso tivesse ocorrido apenas a falha humana, o problema seria logo detectado, admitiu Elias Menezes de Oliveira. "A primeira proteção acionaria um dispositivo caso a pressão do óleo fosse superior a 7 quilos por centímetro quadrado e o líquido seguiria para um `tanque de alívio", explicou. "O problema é que a junta estourou antes de o óleo atingir esta pressão", acrescentou.

Faltam 100 mil

De acordo com o diretor da Petrobras, Albano Gonçalves, faltam ainda cerca de 100 mil litros de óleo para serem retirados. Segundo o relatório da comissão da sindicância, vazaram exatos 3,939 milhões de litros de óleo. Desse total, cerca de 1,42 milhão já havia sido retirado do Rio Iguaçu. Grande parte (quase 75%) ficou retido na própria refinaria.

Ao normal

A Petrobras recebeu ontem a autorização da Agência Nacional de Petróleo (ANP) para voltar a bombear o óleo de São Francisco do Sul a Araucária, processo que estava interrompido desde domingo. Até ontem à tarde o bombeio não havia recomeçado, mas de acordo com Eden Aquino, da Petrobras, a operação voltaria ao normal no máximo até hoje pela manhã. A normalização afasta, portanto, qualquer possibilidade de falta de combustível ou gás de cozinha no Estado, já que o estoque da Repar, segundo a direção da Petrobras, seria o suficiente até sábado à noite.

Maioria dos animais está morta

Desde terça-feira, equipes do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) que trabalham no resgate de animais no Rio Iguaçu capturaram 27 animais, dos quais 22 mortos e cinco vivos. Encaminhados a um centro de emergência instalado em Guajuvira, distrito de Araucária, eles recebem os primeiros socorros e depois são transferidos para o Passeio Público.

Já o Resgate da Ecoplan, que também trabalha no salvamento dos animais com várias equipes espalhadas ao longo do Iguaçu, calcula que apenas ontem e quarta-feira foram encontradas 40 aves mortas, além de cinco vivas, dois cágados mortos e sete vivos. A dificuldade em precisar um número exato é porque tanto o IAP, como as ONGs ambientais e a Ecoplan colocaram equipes em campo.

No centro de emergência, em Guajuvira, o médico veterinário Ubiratan Mendes Silva cuida, com a ajuda de biólogos, dos animais que chegam. Ontem, um martim-pescador, uma marrequinha, um socó e uma rã estavam sendo tratados pela equipe. "O problema crônico começa agora, passada a mancha. Até então, não foram tantos os animais mortos porque só atingiu aqueles que estavam no caminho do óleo. Mas agora estão aparecendo aqueles que estão sofrendo com as conseqüências", explicou Ubiratan. Isso porque os animais estão se intoxicando com os resíduos do petróleo que ficaram à margem do rio e que, segundo a Petrobras, "deve levar algum tempo para serem retirados". "Os outros animais acabam até comendo as aves que já morreram", comentou Ubiratan, mostrando a galinha d'água que chegou morta e com grandes ferimentos na cabeça. "O petróleo não faz isso. Foi um outro bicho", garantiu.

Por enquanto, não foram encaminhados mamíferos mortos ou feridos ao centro de emergência, mas o veterinário teme que isso aconteça. "Eles saem do mato para beber a água do rio. Mesmo sem a mancha do óleo, podem se contaminar", denunciou. Ubiratan não soube precisar o número de animais que vivem naquela região, mas adiantou que não se trata de nenhum "santuário ecológico". "Mesmo assim, é um desastre em cadeia", lamentou. (LS)

Empresa instala mais barreiras de contenção

Três barreiras de absorção e outra de contenção foram montadas ontem no quinto ponto de contenção, município de General Lúcio, a 28 quilômetros da refinaria. O objetivo é que o mínimo de óleo chegue a Balsa Nova, onde está localizado o sexto ponto. "A grande concentração está aqui", avaliou o coordenador da operação naquela localidade, José Carlos Carpeggiani. São cerca de 200 pessoas que estão trabalhando 24 horas por dia. Carpeggiani acredita que o restante do óleo do rio seja retirado até hoje. "A nossa maior dificuldade é a quantidade de lixo", comentou. Segundo ele, apenas os entulhos encheram dois caminhões. "Tem de tudo: plástico, garrafa, bicicleta, boneca". De acordo com a operadora Ledy Carvalho, a primeira mulher a trabalhar na Repar, o lixo está sendo encaminhado para a Refinaria para reciclagem. Vestindo equipamentos de segurança como botas, luvas, capacete e óculos, ela garantiu que os operários não estão enfrentando problemas de intoxicação pelo ar, mesmo sem usar a máscara de proteção. "Se fosse produto destilado, daí sim seria altamente tóxico. Mas cru, não", comentou.

O óleo retirado também está sendo encaminhado à Repar, onde passará pela destilação e será aproveitado. (LS)

Regulamentada a Lei das Águas

O governador Jaime Lerner assinou ontem os quatro primeiros decretos (de um total de nove) que regulamentam a nova Lei Estadual das Águas. A lei objetiva assegurar a disponibilidade do produto à população, ameaçada pela escassez crônica daqui a apenas 25 anos, e considera a água como bem público de valor econômico cujo uso em larga escala deverá ser disciplinado por cobrança de taxas, principalmente das indústrias, empresas de saneamento e de energia.

A regulamentação da nova lei ocorreu um dia após o vice-presidente em exercício da República, Marco Maciel, ter sancionado, em Brasília, com vetos a quatro artigos, a criação da Agência Nacional de Águas - ANA.

Segundo o coordenador do Centro de Coordenação de Programas do Governo (CCPG), Francisco Lobato, "a partir da regulamentação da Lei de Recursos Hídricos pelo governador, o Paraná ganha instrumentos para se antecipar e prever desastres ecológicos como o que devastou as bacias dos rios Tibagi e Iguaçu esta semana".

Este instrumento, segundo o mesmo técnico, é a assembléia que permitirá a formação de condomínios das bacias hidrográficas, em que os usuários podem se articular na defesa dos seus interesses comuns, incluindo medidas de antecipação e prevenção aos problemas de ordem ambiental.

Petrobras dificulta trabalho do MP
Olavo Pesch - jornal O ESTADO DO PARANÁ

O Ministério Público e as ONGs ambientalistas estão preocupadas com os danos ambientais causados pelo óleo que ficou retido no solo após o vazamento ocorrido no último domingo na Repar. Segundo informações da Petrobras, dois milhões de litros ficaram retidos na várzea, a menos de dois mil metros do local do vazamento, antes de chegar no Rio Barigüi. A várzea situa-se entre os pontos de contenção 0 e 1, dentro da área da Repar, e a grande preocupação é que em caso de chuva o óleo se espalhe. Ontem, representantes do Ministério Público de Araucária e técnicos da Promotoria do Meio Ambiente tentaram verificar as condições em que o óleo ficou retido na várzea, mas os funcionários da Petrobras tentaram impedir de diversas maneiras o acesso à área, irritando os promotores.

Em reunião ontem à tarde, no Ministério Público, as ONGs ambientalistas solicitaram que elas e a imprensa pudessem checar o local onde o óleo ficou retido. O pedido foi acatado pelos promotores, que se prontificaram a ir ao local imediatamente. A reportagem de O Estado foi o único veículo de comunicação que acompanhou a ação do Ministério Público na Repar. Inicialmente, os funcionários da refinaria sugeriram que a vistoria fosse feita de helicóptero. Dois promotores fizeram o passeio aéreo, mas os demais queriam conferir o local de perto. Depois de tentar impedir o acesso da imprensa, funcionários do Departamento Jurídico da Repar providenciaram transporte para os representantes do MP, imprensa e ambientalistas irem ao local. O funcionário da Repar levou os promotores até o trecho do rio Barigüi que já estava limpo, para revolta dos ambientalistas e da promotora de Araucária, que queriam que ele mostrasse a várzea onde o óleo ficou retido.

Quando chegaram perto da várzea, já começava a escurecer e os técnicos da Promotoria do Meio Ambiente só puderam checar à distância as condições do solo. Os promotores e técnicos pretendem retornar hoje ao local, para dar continuidade à investigação. Mas a análise preliminar já indicou os prejuízos ambientais causados pelo óleo retido. Os técnicos da Promotoria do Meio Ambiente disseram que o petróleo se espalhou por um terreno hidromórfico (esponjoso), com grande capacidade de absorção. Eles vão elaborar um laudo técnico sobre as condições do local. "Este lençol freático está todo contaminado", observou Tadeu Lucaski, vice-presidente da Amar (Associação , que está atuando em parceria com o MP de Araucária.

Danos ambientais

Percorrendo as estradas de terra que dão acesso às barreiras de contenção, dentro da Repar, era possível verificar os estragos causados pelo vazamento. A mata rasteira, córregos e lagos estão totalmente pretos. Cinco dias após o acidente, o cheiro ainda era forte. Técnicos que trabalhavam na recuperação da fauna disseram que o óleo, após o vazamento, desceu por uma rua de terra, e atingiu os dois lados da estrada. Eles confirmaram que o grosso do petróleo ficou retido antes de desaguar no rio.

MP recebe documentos da Repar

O advogado Arno Apolinário Júnior, do Departamento Jurídico da Repar, entregou ontem à Promotoria do Meio Ambiente cópias do plano de emergência, análise de risco e licença de operação da refinaria. Na entrega, estavam presentes ONGs ambientalistas, que começaram a questionar algumas ações da Petrobras para conter o vazamento. Arno não foi informado de que as entidades participariam da reunião, e não soube responder questões técnicas levantadas por elas. O MP marcará uma nova reunião com a presença de técnicos da Repar para esclarecer as dúvidas. "Preocupa dizer que o óleo está contido, se os técnicos da UFPR dizem que o óleo contém benzeno, que é cancerígeno", alegou João Bello, da ONG ambientalista Associação Xamã. "A Petrobras tem um passivo ambiental com o povo do Paraná ad eternun", complementou. Ele pediu providências do Ministério Público quanto ao IAP, que licenciou o oleoduto.

De acordo com a presidente da Amar (Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária), Lídia Lucaski, o maior erro foi a refinaria permitir o vazamento. "Não é possível que um segurança ou outro funcionário da Petrobras não tivesse visto a mancha de 50 metros de diâmetro", considera. Ela também questionou o licenciamento do IAP. "Se houve análise de risco, como que o óleo não foi contido?", indagou.

Providências

O promotor do Meio Ambiente, Sérgio Luiz Cordoni, prometeu investigar a retenção da mancha na várzea e seus conseqüentes danos, e o problema do benzeno espalhado pela mancha. Ele explicou que o MP vai apurar os responsáveis pelo vazamento, através de inquérito civil, e verificar se a Repar tinha realmente um plano de emergência, através dos documentos fornecidos ontem. Na seqüência, informou que o MP vai acompanhar a recuperação do dano.

Cordoni também pediu ao advogado que a Repar forneça informações claras e transparentes principalmente à população ribeirinha, como o alerta sobre pesca e plantio nas áreas afetadas. Arno disse que a empresa está preparando uma cartilha, já que os comunicados pela televisão não atingem a população ribeirinha. "A idéia é não omitir nada", declarou. (OP)

Resíduos remanescentes preocupam especialistas

A fração solúvel do petróleo ultrapassou as barreiras de contenção, assim como componentes tóxicos presentes no óleo evaporaram e já estão presentes na atmosfera. Essas são algumas das conseqüências do vazamento de 4 milhões de óleo cru da Refinaria Getúlio Vargas, em Araucária, que mostram que apenas a contenção da mancha de óleo no rio não elimina o problema. Ontem o professor do departamento de química da Universidade Federal do Paraná Carlos Jorge da Cunha divulgou um documento sobre os principais danos causados ao ambiente, e que podem continuar mesmo depois que todos os problemas "visíveis" forem detectados.

"Grandes quantidades de hidrocarbonetos leves de petróleo estão sendo jogadas na atmosfera e sua remediação é impraticável nesta situação. Os hidrocarbonetos no ar, em contato com óxidos de nitrogênio e sob ação do sol, podem formar ozona - entre outros compostos tóxicos oxidantes - que causa problemas respiratórios e irritação nos olhos", explica o documento, elaborado em conjunto com o geólogo da Hidropar João Nogueira Filho.

O professor e o geólogo alertam ainda que os componentes solúveis do petróleo (cerca de 20% da composição do óleo) possuem substâncias cancerígenas. Solubilizados na água e evaporados no ar essas substâncias - conhecidas por benzeno, tolueno e xileno - são mais difíceis de serem dissipadas.

Cavas

Os resíduos do petróleo remanescente nas margens dos rios Barigüi e Iguaçu também preocupam os especialistas. O geólogo lembra, por exemplo, que foram utilizadas cavas de areia para reter parte do petróleo. "Estas tem comunicação com águas do lençol freático e, por conseguinte, com os rios. Na medida que os grãos de areia e lodo se impregnem de petróleo tornar-se-ão permanentes áreas de desprendimento de hidrocarbonetos, tanto para o lençol freático como para os rios", explica.

De acordo com ele, as contaminações por hidrocarbonetos em água doce não experimentam, necessariamente, os mesmos fenômenos que em água salgada. "Os rios apresentam recursos menores que as águas marinhas para se descontaminarem e os ecossistemas atingidos são em número maior e mais frágeis", esclarece. (Katia Michelle)

Contaminação com efeitos a longo prazo

O ideal, conforme explica o professor de Química Toxicológia do Curso de Química da UFPR, Daniel Alves de Melo, é que mesmo após os efeitos visíveis do acidente - como a eliminação da mancha de óleo que se formou no rio - serem eliminados, os órgãos responsáveis continuem realizando monitoramento e façam um estudo específico na população e nos animais.

Ele explica que as quantidades de solúveis do petróleo que se dissolveram na água e aquelas que evaporaram podem contaminar a flora e a fauna a longo prazo, mas que não existe estudo específico no Brasil que mostre os níveis dessa contaminação. "Esses componentes são metabolizados pelo fígado e pelos rins das pessoas e depois de algum tempo podem causar problemas. Já os animais podem sofrer mutação", esclarece, salientando a importância do acompanhamento de profissionais na área ao redor do rio no mínimo dois anos depois do acidente".

O professor de química toxicológica lembra que não existe nada que a população possa fazer a respeito e que cada ser humano reage diferente à contaminação. "Se uma pessoa que já tem uma deficiência imunológica beber a água contaminada reagirá diferente de uma saudável", exemplifica. (KM)

Sanepar instala barreira

A Sanepar começou a instalar na tarde de ontem uma barreira de proteção na captação de água de União da Vitória, para conter eventuais resíduos decorrentes do vazamento de óleo no Rio Iguaçu. O presidente da Sanepar, Carlos Teixeira de Freitas, e o presidente do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), José Antônio Andreguetto, se reúnem com a Defesa Civil em União da Vitória, hoje, às 10h, no auditório da Prefeitura.

Depois da reunião, o grupo vai acompanhar o trabalho de instalação da barreira de proteção na captação de água. O trabalho, que tem o apoio do 5.º Batalhão de Engenharia e Combate do Exército, é uma das medidas preventivas adotadas pela Sanepar para assegurar normalidade ao abastecimento de água aos 73 mil moradores dos municípios de União da Vitória e Porto União (SC).

O presidente da Sanepar, Carlos Teixeira de Freitas, diz que o resultado de todas as análises físico-químicas e cromatográficas realizadas no Rio Iguaçu confirmam que a empresa está preparada para tratar a água. "Além do monitoramento e da instalação da barreira na captação, também já tomamos as medidas recomendadas para adequar o tratamento da água, caso seja necessário." Ele lembra ainda que o tratamento alternativo com carvão ativado vai garantir a potabilidade da água que será distribuída.

Segundo a Defesa Civil, o trabalho de recuperação ambiental na região afetada será realizado depois da avaliação feita pelo IAP, Ibama e Copel. Na recuperação do produto que ficou na área interna da refinaria, onde se concentra a maior parte do óleo derramado, trabalham 500 homens. A Petrobras deve contratar 350 pessoas, nos próximos dias, para distribuir folhetos com orientação à população ribeirinha.

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18070004.gif (1014 bytes)Veja matéria do vazamento causado pela PETROBRÁS no Rio de Janeiro

 

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