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| GAZETA DO POVO - 21/Julho/2000 Advogado da Petrobrás entrega documentos ao Ministério Público Atitude da empresa descontentou promotores Clarissa Lima
Os promotores estaduais que cuidam do caso do acidente na refinaria Presidente Getúlio Vargas, de Araucária, e o procurador da república João Gualberto Garcez Ramos não ficaram satisfeitos com a atitude da Petrobrás ao apresentar os documentos que foram requisitados pelo Ministério Público (MP). Eles esperavam que técnicos ou diretores da empresa comparecessem para prestar esclarecimentos sobre o acidente, que provocou o vazamento de 4 milhões de litros de óleo cru, nos rios Barigüi e Barigüi. Os papéis solicitados foram entregues ontem no Centro de Apoio às Promotorias do Meio Ambiente, em Curitiba, por um dos advogados da empresa. Por conta dissso, logo após o final da reunião, os membros do Ministério Público estadual e federal foram até a refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária, para ver como está a situação da contenção da mancha de óleo no Rio Iguaçu. Ao sobrevoarem a área, eles disseram que o óleo parece estar contido no rio, mas a quantidade do produto no solo seria ainda muito grande, o que impressionou os promotores.
Documentos
Os promotores devem começar a analisar hoje os documentos entregues pela Petrobrás. Trata-se da licença ambiental, do plano de contingência e do plano de emergência para acidentes. Ainda ontem, o procurador da república, deu prazo de dez dias para que a empresa apresente as causas do acidente. Na semana que vem, técnicos da Petrobrás devem ser chamados para nova reunião no Centro de Apoio. O Ministério Público também requisitou ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) uma cópia do procedimento de licenciamento ambiental da Repar. Os promotores não descartam a possibilidade de co-responsabilizar o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) pelo acidente, caso fique provado que a licença tenha falhas. Estes procedimentos do MP irão integrar o inquérito civil que já está instaurado para apurar o vazamento de óleo, ocorrido no domingo.
Meio ambiente Grupo de Resgate
do Iguaçu, formado por 20 organizações não-governamentais, faz acordo com refinaria Custo das ações ambientais foi definido em R$ 500 mil para estrutura técnica e
transporte A Petrobrás acertou ontem um acordo verbal com as 20 organizações não-governamentais envolvidas em ações ambientais e sociais nas áreas atingidas pelo vazamento de óleo no domingo na Refinaria Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba. Pelo acordo firmado com as entidades - que deve ser oficializado hoje -, a empresa assumiria a responsabilidade técnica pelas operações de resgate de animais e atendimento sócio-ambiental, recuperação de fauna e flora e segurança dos voluntários das ongs reunidas no Grupo de Resgate do Iguaçu. A Petrobrás também pagaria o custo operacional das ações das organizações ambientalistas que ficou definido em cerca de R$ 500 mil. "Este valor será destinado para cobrir os gastos em equipamentos, aluguel de barcos e helicópteros e estrutura técnica dos grupos", afirma o presidente da Ecoplan - entidade que está na coordenação das ações -, Marco Aurélio Ziliotto. Ele diz que, pelo acordo, a Petrobrás também se propõe a entregar um plano de acompanhamento para a recuperação da fauna e da flora sobreviventes, além de ações de apoio à população que vive próxima às regiões afetadas pelo acidente. "Acredito que até 19 de agosto a empresa já terá entregue este plano de ação", afirma Ziliotto. Neste dia, as ongs farão uma reunião pública no município de Araucária para apresentar uma avaliação geral das conseqüências do vazamento e atitudes que a Petrobrás tomou para resolver a situação. Tumulto Ziliotto avalia como positivo o resultado do primeiro dia de ação de resgate das organizações não-governamentais, realizada na quarta-feira. "Tivemos apenas 48 horas para nos mobilizar. É claro que ainda temos alguns problemas de organização, mas o trabalho está saindo da melhor maneira", diz. As ongs começaram com 40 voluntários e ontem já havia 100 pessoas trabalhando voluntariamente nos resgates de animais e atendimento social à população ribeirinha do Iguaçu. "O número de voluntários cresce a cada dia, mas estamos cuidando para evitar tumulto", afirma Zillioto. Quem tiver interesse em participar pode se cadastrar junto à Ecoplan. O telefone das Ongs do Resgate do Iguaçu é o 0800-410093 e a ligação é gratuita. A linha também é aberta para dúvidas e informações relacionadas ao acidente. Contraponto O biólogo e presidente da organização
não-governamental Instituto Gaia do Brasil, Tiaraju Fialho, criticou a forma de ação
das entidades ambientalistas que atuam nas áreas do Rio Iguaçu atingidas pelo vazamento
de óleo. Gaia diz que a mobilização está sendo feita mais para a promoção de
autoridades políticas envolvidas com causas ambientais do que em razão do acidente.
"A intenção é válida, mas a maioria das pessoas envolvidas na coordenação só
quer se promover às custas do problema", opina Gaia. Agricultor põe em risco
prevenção de incêndios Uma queimada feita por um agricultor, ontem, nas imediações da Refinaria Getúlio Vargas (Repar), por pouco não coloca em risco o trabalho de monitoramento de incêndios realizada pelos bombeiros e pelo governo do Paraná, inclusive com a ajuda de satélites. Não houve dificuldades para se controlar o incêndio. O acidente mostrou, porém, que boa parte da população ainda está desinformada sobre o perigo que o petróleo vazado da Petrobrás representa. Os perigos sobre a tragédia que um palito de fósforo aceso pode causar ao cair no Rio Iguaçu manchado de óleo cru são desconhecidos por muitos moradores que vivem próximos ao rio. Um dia após o acidente, em Guajuvira, a 35 quilômetros de Curitiba, muitos curiosos, inclusive fumando, olhavam a espessa mancha de cima de pontes. E a poucos quilômetros da região, queimadas eram feitas sem coibição dos bombeiros. Somente na quarta-feira houve maior preocupação em monitorar incêndios em todo o leito do Rio Iguaçu. Ondas de calor estão sendo rastreadas inclusive por satélite, para evitar que a região se transforme numa zona de risco para incêndios que podem fugir do controle. O pequeno incêndio de ontem, segundo os bombeiros que atuam na refinaria de Araucária, serviu como alerta. Eles sugerem inclusive que a Petrobrás elabore uma cartilha para distribuir entre todos os moradores das regiões ribeirinhas ao Iguaçu, nas áreas mais críticas atingidas pela mancha. Precauções Um simples caco de vidro pode fazer um lixão incendiar, segundo os bombeiros. Eles advertem ainda que as pessoas não devem se aquecer mantendo latas cheias de álcool. Fogueiras no meio da mata, observam, podem se transformar em grandes incêndios se não forem totalmente apagadas. Fornos à lenha precisam ser apagados, sem que sobre uma brasa sequer acesa e estufas devem passar por manutenção periódica. Válvulas de botijões de gás não podem ser manuseadas apenas quando é feita a troca. Serviço: O telefone de emergências
do Corpo de Bombeiros é 193. Limpeza do Rio Iguaçu gera
emprego para 1.200 pessoas O acidente de domingo na Refinaria Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, acabou de uma certa forma beneficiando cerca de 1.200 pessoas, que foram contratadas temporariamente para ajudar no serviço de limpeza das áreas afetadas pelo vazamento do óleo. De acordo com o setor de contratação da Petrobrás, que terceirizou o serviço entre várias empresas de Curitiba e Região Metropolitana, a maioria destas pessoas estava desempregada. Não há previsaõ de quanto tempo durará o contrato dos novos trabalhadores. A estatal oferece aos novos contratados equipamentos de limpeza, como luvas e macacões, alimentação e transporte até os locais de trabalho. De acordo com o setor de contratação da Petrobrás, o pagamento dos trabalhadores será definido pelas empresas, mas deve variar de R$ 100 a R$ 50 por dia, dependo do grau de especialização do contratado. Além dos 1.200 temporários, a estatal tem 800 funcionários trabalhando na recuperação dos estragos causados pelo acidente. Para o mestre de obras Cláudio Vargas, 35 anos, que ontem coordenava um grupo de trabalhadores temporários vindos de São José dos Pinhais, a oferta de vagas deve representar uma nova esperança para os desempregados do setor de construção civil, especialmente da população que vive na RMC. "Muita gente veio atrás do emprego, é uma oportunidade que hoje está difícil de aparecer", diz Vargas. Ele conta que anunciaram as vagas para o serviço no final da tarde de quarta-feira e que ontem já tinham contratado cem pessoas. O serviço temporário na refinaria é o primeiro emprego em Curitiba de Alessandro de Jesus da Silva, 19 anos, que trabalhava como motorista de trator. Ele é de Arapoti, norte do estado, e está na capital há apenas quatro semanas. "Estava procurando trabalho desde que cheguei, achei esta oferta muito boa", afirma Silva. Pelo serviço de limpeza das margens do rio Iguaçu ele vai receber R$ 20 por dia. "Este acidente tinha que ter um lado bom", comenta. Desempregado há 15 dias, Hilton Marques, 29 anos, ontem comemorava o pagamento que receberia pelo serviço na Repar. Ele deve receber R$ 50 por dia. "Creio que o ganho será muito bom", diz. Representantes do governo
argentino estão em Curitiba Dois representantes do governo argentino chegaram ontem a Curitiba para averiguar pessoalmente a situação na Repar e no Rio Iguaçu após o vazamento de óleo de domingo. O representante do Ministério da Ecologia de Misiones, Argentina, Telmo Báez, e o diretor nacional de conservação de área protegidas de parques nacionais da Argentina, Daniel Somma, afirmam que estão muito preocupados com o acidente. Hoje eles vão até a Repar para um encontro com representantes da Petrobás e em seguida percorrem a área atingida pelo óleo em helicóptero. "Estamos nervosos porque se de alguma maneira resíduos chegarem à Argentina será um desastre", diz Báez. Ele diz que a maior preocupação é que ocorra a contaminação do Rio Paraná, afluente do Iguaçu, que corta a Argentina. "Queremos um estudo da água para termos certeza de que não há risco de contaminação", afirma. Ele diz que, apesar de estar sendo orientado por organizações não-governamentais brasileiras de que praticamente não há possibilidade do óleo ou resíduos chegarem à Argentina, continuam receosos. Báez conta que as autoridades argentinas estão em alerta desde o acidente. "As informações que nos chegam pela Internet e jornais são muito contraditórias, viemos para cá para checarmos por nós mesmos", justifica. Ele conta que ontem pela manhã, um noticiário de televisão argentino alertava a população sobre o perigo de contaminação das Cataratas do Iguaçu em função do vazamento no Paraná. Somma diz que a intenção do governo argentino é agir em parceria com o Ibama, para que a situação seja esclarecida. "O Rio Iguaçu é um cordão de vida entre Brasil e Argentina, por isso a gravidade do problema e nossa preocupação", declara Somma. As autoridades argentinas devem ficar em Curitiba até o fim de semana. Argentinos preparam simulação Mesmo com a informação de que o óleo vazado da Repar está contido, os argentinos continuam preocupados com uma possível chegada da mancha nas Cataratas do Iguaçu. Hoje uma equipe de 25 homens da Prefeitura Naval e do Serviço de Saneamento, Incêndio e Contaminação da Argentina fará um exercício de simulação no Porto de Andresito, fronteira com o Porto de Lupião (no Paraná) para conter a eventual chegada da mancha. O oficial auxiliar da Prefeitura Naval de Puerto Iguazú, na fronteira com Foz do Iguaçu, Sérgio Bertolli, diz que a área argentina na confluência dos Rio San Antônio com o Rio Iguaçu - que poderia ser contaminada pelo óleo - será isolada durante o exercício. O local fica a cerca de 50 quilômetros das Cataratas do Iguaçu. Três caminhões já foram enviados para o local. Eles carregam barras de contenção e bombas de sucção que serão usadas durante o treinamento. "É uma medida de prevenção. Se o óleo não chegar serve como exercício", diz Bertolli. A operação será acompanhando por diversos meios de comunicação da Argentina. Os argentinos temem que pelo menos parte do óleo vazado se aproxime da fronteira. A hipótese já foi negada pelo Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Petrobrás, que informaram que a mancha não chegará até lá.
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