.

20 anos para recuperar várzea poluída

22/Julho/2000 - Original de Lyrian Saiki jornal 
O ESTADO DO PARANÁ

22070001.jpg (17318 bytes)O maior desastre ambiental não foi no rio, mas sim nas várzeas, principalmente naquela situada entre o ponto de contenção 0 e 1, dentro da Petrobras/Repar. É essa a avaliação do ambientalista Tadeu Lucaski, vice-presidente da Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária (Amar). Ele acredita que os danos ao solo possam levar até 20 anos para serem reparados. "A área é quase uma esponja. O lençol freático é mais superficial e, como o óleo é fino, ele está sendo totalmente absorvido pelo solo", explica a presidente da Amar, Lidia Lucaski. Segundo a Petrobras, ficaram retidos nessa área 2/3 do óleo vazado, ou seja, cerca de 2,5 milhões de litros.

Lidia só conheceu a várzea na quinta-feira, juntamente com técnicos e promotores do meio ambiente. Ontem ela retornou ao local e voltou ainda mais revoltada com o que viu. "Está nascendo óleo do chão. É algo terrível. Todo o lençol freático está contaminado, e as árvores vão morrer", lamenta. Lidia lembra que a vida nas várzeas é muito rica, mas ela conta que não viu uma ave sequer durante as três horas que esteve caminhando pelo local. "Todos os animais devem ter morrido", acredita. Ela conta que, seguindo ordens da Petrobras, os voluntários que trabalham no local estão enterrando os bichos mortos que encontram. "Eles (voluntários) são pobrezinhos, não sabem nada e só fazem o que mandam", lamenta.

No combate à poluição do solo, a Petrobras anunciou ontem que irá utilizar bactérias na tentativa de reverter o problema.

Ação civil

Por entender que a Petrobras não estava, sob aspecto algum, preparada para enfrentar a situação que ocasionou o maior desastre ecológico, a Amar impetrou ontem ação civil pública na Justiça Federal contra a empresa. No documento, a Associação pede a suspensão liminar da licença de operação da Petrobras. "A empresa se mostrou incapacitada na contenção dos danos ambientais", avalia a advogada Marlene Zanin, da Amar. "A gente desconfia que a Petrobras esteja em desacordo com a legislação, ou então que só esteja em acordo no papel, mas que não cumpre a lei", acrescenta. Ela pede ainda reparação de danos ambientais, morais e materiais, e que a empresa passe a operar apenas sob a supervisão de órgãos ambientais.

Lerner: "Todos são responsáveis"
O governador do Paraná, Jaime Lerner, rebateu ontem a acusação feita pelo ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, de que a fiscalização dos oleodutos é responsabilidade do Estado. Segundo o governador, que ontem esteve com o presidente Fernando Henrique Cardoso fazendo um relato sobre o vazamento de óleo na refinaria Getúlio Vargas, em Araucária (PR), "todos são responsáveis pelos problemas ambientais".

Na última terça-feira, além de responsabilizar o órgãos de fiscalização do Paraná, o ministro Sarney Filho disse que os culpados irão pagar multa pelos danos ambientais provocados pelo derramamento de óleo.

"Cada órgão multa e toma a iniciativa que achar importante", reagiu o governador. "Cada um cuida da sua parte e todos estão preocupados com a recuperação ambiental e isso é que é fundamental", completou. Para o governador, chega a ser "uma ironia do destino" o fato de o vazamento ocorrer no Estado. "Todos sabem que o Paraná é modelo de preocupação com o meio ambiente e de preservação ambiental." Lerner afirmou que todas as providências para conter o avanço do óleo foram tomadas e que o governo agora irá "apurar as responsabilidades para que esse tipo de problema nunca mais aconteça". Disse ainda que a reparação ambiental levará meses.

Ontem, no Palácio da Alvorada, o governador explicou ao presidente as providências já tomadas em relação ao desastre ambiental e apresentou ainda dados sobre os problemas que as geadas estão provocando na agricultura do Estado. As geadas provocaram perdas na colheita do café (90%), do milho (70%) e trigo (35%). O Ministério da Agricultura já liberou R$ 3 milhões para o Estado.

O trabalho de limpeza continua
A Coordenadoria de Defesa Civil do Paraná e a Petrobras informaram no final da tarde de ontem que já foram recolhidos 1,95 milhão de litros de óleo da área interna da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária, e dos rios Barigüi e Iguaçu. Mais de duas mil pessoas trabalham no recolhimento do óleo e limpeza dos rios. O cálculo dos técnicos é que até a próxima quarta-feira o espelho dágua dos rios estará totalmente limpo.

A maior parte do óleo que escapou da refinaria está contido e controlado por barreiras e equipamentos instalados entre as localidades de Guajuvira e General Lúcio, num trecho de aproximadamente 11 quilômetros do Rio Iguaçu. Pequena quantidade chegou às barreiras instaladas nas proximidades do município de Balsa Nova, a 44 quilômetros da refinaria.

A recuperação do petróleo concentrado na quinta barreira, em General Lúcio, onde está o maior volume do que vazou para os rios, vinha sendo feita por caminhões-bomba e skimmers - bóias sugadoras flutuantes. A Petrobras colocou em operação nesse local na quinta-feira um egmopol, lancha sugadora de alta eficiência, trazida dos Estados Unidos. Com esse equipamento, o trabalho de recolhimento do óleo foi acelerado.

Cerca de dois terços do petróleo vazado, segundo técnicos da Petrobras e da Defesa Civil, ficaram retidos na área interna da refinaria. Um terço, aproximadamente, chegou aos rios Barigüi e Iguaçu. Desse total, de 20% a 30% do óleo evaporou, por ser petróleo leve, de grande volatilidade. A Petrobras concluiu na quinta-feira o projeto de monitoramento e recuperação da área afetada pelo vazamento, que será apresentado nos próximos dias aos órgãos ambientais oficiais.

A Petrobras calcula que o trabalho vai durar de seis a 12 meses. O projeto envolve um plano de remediação ambiental e de monitoramento das águas e margens dos rios. O trabalho incluirá a avaliação dos danos ambientais. Numa primeira avaliação, os técnicos acreditam que os danos serão pequenos e recuperáveis a médio prazo, em função da velocidade dos trabalhos de limpeza e recolhimento do óleo.

"Sempre é culpa dos funcionários"
"Parte do resultado, a gente já esperava. A empresa sempre se exime da culpa." O desabafo do presidente do Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro), Hélio Luiz Seidel, refere-se ao resultado da comissão de sindicância que apurou as causas do vazamento de 4 milhões de óleo no domingo. A conclusão de que parte do acidente foi provocada por falha humana só veio confirmar o que o presidente do Sindipetro havia declarado à imprensa na última terça-feira. "Qualquer falha é sempre humana, para a Petrobras. A gente acredita que haja até demissões depois disso", comentou ele, antes ainda de o relatório estar pronto. Seidel alega que o número de funcionários reduziu nos últimos 20 anos, o que provocou o acúmulo de tarefas. Mesmo assim, ele avalia que não seria o suficiente para desencadear um acidente.

De acordo com Seidel, a Petrobras faz um relatório de não conformidade em cada acidente registrado, mesmo que de pequeno porte. "Em 90% é constatado erro humano, mas nem por isso aconteceram acidentes graves", revela. A não-abertura da válvula do tanque, um dos motivos do desastre, não é uma prática tão incomum", confessa Seidel. "A sobrecarga, o estresse e a falta de planejamento de serviços podem levar o funcionário a cometer alguns erros", admite. Mas para quaisquer eventualidades, o sistema de segurança deveria ser acionado.

"Esse tal `sistema de modernização' não funcionou", critica o presidente. O setor de transferência e estocagem - local onde aconteceu o acidente - é operacionalizado por 7 ou 8 funcionários, de acordo com Seidel, mas antes eram entre 14 e 15. "Havia uma pessoa que cuidava apenas daquela área, mas seu cargo foi extinto há dois anos", lembra. Também na área de segurança, onde em 1989 atuavam 12 funcionários, hoje há apenas três pessoas trabalhando.

Série de anormalidades
Com a redução do número de funcionários, cada operador do setor de transferência e estocagem ficou responsável por 32 tanques, além de sistemas de válvulas e tubovias. "A distância de um lugar para outro pode chegar a dois ou três quilômetros, e o deslocamento é feito de carro", diz. Segundo ele, no domingo, quando aconteceu o vazamento, foi registrada uma série de anormalidades, entre elas o acidente com dois funcionários, que se contaminaram com ácido sulfídrico. "Foi um dia bastante tumultuado", lembra. (LS)
Com a redução do número de funcionários, cada operador do setor de transferência e estocagem ficou responsável por 32 tanques, além de sistemas de válvulas e tubovias. "A distância de um lugar para outro pode chegar a dois ou três quilômetros, e o deslocamento é feito de carro", diz. Segundo ele, no domingo, quando aconteceu o vazamento, foi registrada uma série de anormalidades, entre elas o acidente com dois funcionários, que se contaminaram com ácido sulfídrico. "Foi um dia bastante tumultuado", lembra. (LS)

Ministro não descarta demissão após laudo
O ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, esteve ontem na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, sobrevoando a área e inspecionando as instalações da refinaria. Preferindo não antecipar que punições a companhia aplicará a eventuais responsáveis pelo acidentes, o ministro não descartou, no entanto, a possibilidade de que haja demissões tão logo fique pronto o relatório final. "Só depois de concluída a sindicância a empresa decidirá sobre o assunto", disse. A comissão terá prazo de 15 dias para ouvir todos os empregados envolvidos na operação do duto acidentado e gerentes da refinaria.

Em entrevista coletiva, o ministro negou que a Petrobras esteja passando por crise política. Ele se encontrou com a direção da empresa, além de representantes do IAP e da Defesa Civil.

Numa "avaliação pessoal", Tourinho disse que o acúmulo de óleo está quase eliminado e que "em mais alguns dias os trabalhos de coleta de água serão concluídos". Dizendo-se satisfeito com o ritmo do trabalho e com o resultado conseguido pela operação de recuperação e limpeza do óleo vazado, o ministro lamentou o acidente e lembrou que desde janeiro - quando aconteceu o desastre na Baia de Guanabara - a Petrobras vem investindo num ambicioso programa de excelência ambiental e segurança operacional. "Esse acidente de que estamos tratando aqui não teria ocorrido se esse programa já tivesse concluído", lamentou.

Até ontem haviam sido retirados do Rio Iguaçu 1,82 milhão litros de óleo cru, de acordo com a direção da Petrobras. (LS)

Dos animais recolhidos, 90% estão morrendo
Nem a mobilização de equipes do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), da Ecoplan e do Ibama, ou a boa vontade de dezenas de Organizações Não-Governamentais (ONGs) ambientais, está conseguindo salvar os animais ao longo do Iguaçu. De acordo com o médico veterinário do Passeio Público (para onde são encaminhados os animais vivos e mortos), Manoel Lucas Javorouski, apenas 10% sobrevivem. Até ontem haviam chegado 68 animais, dos quais apenas uma ave e seis cágados sobreviveram. "O tempo de vida daqueles que chegam vivos não é superior a um dia", revela. Segundo ele, as aves são mais frágeis porque o óleo impermeabiliza a plumagem, provocando a hipotermia (queda da temperatura). Morrem, portanto, de frio. Javorouski não descarta a possibilidade de que aumente o número de animais vítimas do vazamento de óleo, já que os resíduos do líquido permanecem às margens do rio. (LS)

18070004.gif (1014 bytes)Esta matéria continua. Clique Aqui
18070004.gif (1014 bytes)Veja matéria do dia anterior
18070004.gif (1014 bytes)Veja matéria do vazamento causado pela PETROBRÁS no Rio de Janeiro

Home ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO RIO DE JANEIRO ] PETROBRÁS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] [ PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE ÓLEO NO PARANÁ ] PETROBRAS - VAZAMENTO DE NAFTA EM PARANAGUÁ ]

Acima ]