Para ONGs, PETROBRAS omite informação

GAZETA DO POVO - 22/Julho/2000

Vazamento Petrobras

Ambientalistas denunciam que a Petrobrás está omitindo informações sobre a verdadeira dimensão dos danos provocados pelo vazamento de óleo ocorrido em Araucária. A estatal tem impedido o acesso dos voluntários das ONGs e da imprensa à área de mais de 20 hectares alagada pelo óleo derramado.

A Amar (Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária) ajuizou ontem na Justiça Federal uma ação civil pública contra a Petrobrás. Este já é o segundo processo judicial que a empresa terá que responder sobre o vazamento de óleo na refinaria de Araucária. Ontem também a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente de Curitiba intimou todos os petroleiros que atuavam na refinaria no dia do acidente para prestar depoimentos no inquérito civil instaurado esta semana.

Membros da área técnica do Ministério Público (MP) também visitaram a área afetada pelo vazamento. O laudo técnico deverá dar subsídios para ações civis e criminais do MP, tanto federal como estadual.

Acusações
Para a ambientalista Teresa Urban, o óleo estaria a uma profundidade de 30 centímetros a um metro do solo, ainda afastado do lençol freático. Segundo Teresa, a vegetação do local é secundária e não haveria prejuízo em removê-la para implantar um projeto de recuperação com árvores mais nobres. Esta e outras sugestões das ONGs estão concentradas em um documento enviado ontem às autoridades ambientais e à Repar, denominado "Plano de Recuperação do Rio Iguaçu".
Para a ambientalista Teresa Urban, o óleo estaria a uma profundidade de 30 centímetros a um metro do solo, ainda afastado do lençol freático. Segundo Teresa, a vegetação do local é secundária e não haveria prejuízo em removê-la para implantar um projeto de recuperação com árvores mais nobres. Esta e outras sugestões das ONGs estão concentradas em um documento enviado ontem às autoridades ambientais e à Repar, denominado "Plano de Recuperação do Rio Iguaçu".

A Fundação Ondazul, organização não-governamental com sede no Rio de Janeiro, criticou ontem a Petrobrás pela condução de sua política ambiental. A entidade liderou, em janeiro deste ano, após o vazamento de óleo na Baía de Guanabara, cerca de doze entidades ambientalistas cariocas, intermediando negociações com a empresa para a tomada de providências para a limpeza da baía.

Sobre o acidente de domingo na refinaria de Araucária, a Ondazul afirmou, em documento oficial, que o vazamento na Repar repetiu o que aconteceu na Reduc (Refinaria Duque de Caxias): "foi novamente um problema com dutos, novamente ocorreu uma falha de detecção e houve lentidão na reação, exacerbando os efeitos do acidente, cujo volume foi ainda maior do que o da Baía de Guanabara".

Ainda no documento, a Ondazul questiona a credibilidade dos compromissos assumidos pela Petrobrás perante a sociedade, expressos num acordo firmado no dia 15 de maio, assinado pela direção da empresa e com as ONGs ambientalistas que atuaram (e atuam) na recuperação da baía. Os diretores da Ondazul referem-se ao fato de até agora a empresa não ter convocado a primeira reunião da Comissão de Controle Social (prevista no acordo), que deveria ter ocorrido no mês de junho.

Meio ambiente Ministro das Minas e Energia diz não ter dúvida que acidente na Repar foi "erro humano"
Tourinho cogita possibilidade de demissões na Repar
Punições aos altos escalões da Petrobrás não foram cogitadas pelo ministro

Lenise Aubrift Klenk

O Ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, não tem dúvidas de que a causa do vazamento na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no domingo passado, seja falha humana. Segundo ele, o problema técnico é apenas conseqüência de um erro humano. O ministro admite que, a partir dessa constatação, os responsáveis sejam punidos, inclusive com demissões.

Segundo Tourinho, o operador que deixou de abrir a válvula do tanque que deveria receber o óleo "não pode e não deve" ser punido antes do resultado da sindicância interna, que deve estar concluída em 15 dias. O ministro não confirmou se correm riscos os ocupantes de cargos do alto escalão da Petrobrás - entre eles, o superintendente da Repar, Luiz Valente Moreira, e o diretor da Petrobrás, Albano de Souza Gonçalves. "Ao apurar as responsabilidades, temos que dar continuidade ao processo", diz. "Mas a demissão não é um objetivo."

O ministro nega que o acidente na Repar seja resultado de uma política de contenção de funcionários, o que estaria gerando uma sobrecarga de trabalho. De acordo com Tourinho, o processo de automação na Petrobrás - do qual fazia parte a substituição de peças que contribuiu para que o vazamento ocorresse - tem a finalidade de aumentar a segurança, embora isso represente redução de mão de obra. Tourinho afirma que o número de postos de trabalho na Petrobrás obedecem a padrões internacionais de empresas do setor.

Na segunda-feira, o ministro se reúne com diretores da Petrobrás e alguns superintendentes, no Rio de Janeiro. Tourinho também nega que o encontro tenha sido convocado para resolver uma crise política que teria sido provocada pelo acidente na Repar. Segundo o ministro, a reunião vai servir para reavaliar procedimentos a partir dos acidentes e também para discutir o plano estratégico que deve ser implantado pela empresa.

De acordo com Tourinho, a Petrobrás deve ser auto-suficiente em petróleo até 2005, quando deve começar a se preparar para exportar o produto. O ministro diz que a valorização das ações da empresa no mercado são sinais do bom trabalho desenvolvido pela nova administração. O elogio deixa transparecer a intenção de Tourinho em manter Philippe Reichstul na presidência da Petrobrás.

 

Vazamento
Dia "atípico"

Um dia "atípico" na refinaria da Petrobrás em Araucária pode ter contribuído para que o vazamento acontecesse. Segundo o presidente do Sindicato dos Petroleiros do Paraná e de Santa Catarina (Sindipetro), Hélio Seidel, a intoxicação de três funcionários por amônia pela manhã e a parada de emergência de uma das caldeiras da Repar à tarde teriam criado condições de tensão no local no domingo. Os problemas poderiam explicar por que o operador responsável pelo tanque que deveria receber o óleo falhou.

Segundo Seidel, o operador, cujo nome não foi divulgado, está "consternado", assim como sua família. Ele teria alegado que não abriu o tanque da área de cru na hora certa por estar trabalhando em outras funções que acumula em uma área intermediária. De acordo com Seidel, há dois anos a função exclusiva de operação da área de cru foi extinta.

Consulado da Argentina diz que país está mais tranqüilo
Embaixada do Paraguai diz não querer se manifestar

O cônsul argentino Ramiro Luis Vila afirma que o governo da Argentina está mais tranqüilo em relação ao acidente de domingo na Refinaria Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Na quinta-feira, dois representantes do governo argentino estiveram na refinaria e nas áreas do rio Iguaçu atingidas pelo óleo para verificar qual a dimensão do problema.

"Destacamos os esforços do Instituto Ambiental do Paraná e do governo estadual como fatores que mais contribuíram para nossa nova posição", diz Vila. Até quinta-feira, o governo argentino declarava-se extremamente preocupado com o acidente no Paraná. Eles temiam que o óleo e resíduos atingissem o território argentino através do rio Iguaçu e em seguida do seu afluente, o rio Paraná, que corta a Argentina. "Nosso medo era a contaminação da água, o que seria ma tragédia total para o país", afirma o cônsul.

Lima diz que, apesar de mais tranqüilo, o governo argentino ainda mantém-se em alerta quanto a questão do vazamento. "Queremos a garantia de que a água será constantemente monitorada, às vezes a contaminação não é visível mas já está feita", afirma.

Um dos representantes argentinos que foram à Repar na quinta-feira, Daniel Somma, diretor nacional de preservação de áreas protegidas e parques nacionais, afirma que ficou satisfeito com a visita à refinaria. "Com o helicóptero, pudemos ver que a mancha está realmente contida", diz Somma. O diretor, porém, reafirma a importância de análises sérias e constantes na água do rio, para afastar qualquer hipótese de contaminação. "Não estamos mais assustados como antes, mas esta situação é séria, a preocupação não deve ser esquecida", afirma.

Paraguai
O governo do Paraguai, através da assessoria da embaixada em Brasília (DF), informou que não tem nada a declarar quanto a questão do vazamento de óleo até que voltem ao país os técnicos que estão do Paraná avaliando o problema. O consultor ambiental paraguaio Mario Bernalt Ovelar, de Assunção, afirmou que o governo pedirá uma indenização se o acidente atingir o país. "No meio ambiente há uma filosofia: quem causa dano tem que pagar", disse Ovelar.

Casa Civil
Para o chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Paraná, José Cid Campello Filho, essa preocupação dos países vizinhos é exagerada. "Já está mais do que claro que a situaçaõ está contida, o que nos resta agora é recuperar o estrago", diz Cid. Ele afirma que talvez o que falte para as autoridades dos outros países seja mais informação sobre o assunto. "O problema é sério, mas não ultrapassou os limites do Paraná", afirma Cid. "Se há alguém que deveria estar exigindo alguma coisa seria a população paranaense, vítima maior da tragédia".

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