Ongs divulgam medidas para evitar degradação completa do Iguaçu

22/07/2000

A Rede de ONGs da Mata Atlântica, que representa cerca de 200 organizações ambientalistas de todo o país, preparou uma lista de medidas mínimas a serem adotadas pela Petrobras para evitar a degradação completa do Rio Iguaçu em conseqüência do vazamento de óleo na Refinaria Getúlio Vargas, em Araucária.

De acordo com a as ONGs entre as medidas mínimas necessárias estão a investigação rigorosa das causas do vazamento, ações civis e penais cabíveis, ampla divulgação dos resultados, realização de auditoria independente para avaliar a gestão ambiental da REPAR e a segurança operacional. A rede também lista medidas mitigadoras, como um plano de recuperação no trecho afetado, considerando situações de remoção, limpeza e isolamento, instalação de sistemas de controle e monitoramento.

Meio ambiente
Contato da àgua da chuva com óleo favorece a infiltração do óleo na terra
Lençol freático está ameaçado
O alerta sobre a contaminação foi dado pelo presidente da Sanepar
Kátia Chagas - jornal GAZETA DO POVO

Vazamento PetrobrasA Sanepar admitiu, ontem, que a chuva pode provocar a contaminação do lençol freático no ponto mais crítico próximo à Refinaria Presidente Getúlio Vargas, onde ainda estão concentrados cerca de 800 mil litros de óleo dos 4 milhões que vazaran no último domingo, em uma área de várzea, conforme estimativa da própria direção da empresa. O presidente da Sanepar, Carlos Afonso Teixeira disse que o contato da àgua com óleo pode favorecer a infiltração de material contaminante para o lençol freático.

A avaliação real do grau de contaminação só poderá ser feita, segundo ele, através do monitoramento e da análise de amostras de água. O diretor presidente do IAP, José Andreguetto também concorda que existe o risco e afirma que, no momento, não é possível prever o grau de contaminação, reconhecendo a urgência de um plano de recuperação da região afetada pelo vazamento de óleo da refinaria.

O superintendente da Repar, Luiz Valente Moreira também não descarta a possibilidade de substâncias tóxicas presente no óleo se depositarem no lençol freático. "Só depois de concluir o trabalho de retirada de óleo, que deve durar um mês, poderemos monitorar o grau de contaminação", disse ele. Segundo o superintendente, o trabalho está sendo feito rapidamente para evitar maiores problemas.

O presidente da Sanepar afirma que "a chuva está provocando um aumento na vazão e na velocidade do rio, aumentando o risco de propagar componentes tóxicos". Segundo Carlos Teixeira, a companhia de abastecimento ainda não detectou a presença de contaminantes de petróleo nas àguas do rio Iguaçu, que abastece o município de União da Vitória e garante " condições de potabilidade" nas cidades de Porto Amazonas e São Mateus do Sul, mas por precaução, determinou que a análise de amostras de àgua sejam feitas com maior periodicidade e quantidade em todos os municípios ao longo do rio, inclusive nas localidades não atingidas pelo óleo.

Análise

Paraguaios em Araucária

O vice-ministro de Recursos Naturais do Paraguai, Luiz Torales Kennedy, o senador Manlio Medina e o deputado paraguaio Nestor Cabañas chegaram ontem a Araucária, na Região Metropolitana. Eles vieram analisar a extensão do acidente da Repar no Rio Iguaçu e os eventuais riscos de o óleo chegar ao país vizinho.

O vice-ministro de Recursos Naturais do Paraguai, Luiz Torales Kennedy, o senador Manlio Medina e o deputado paraguaio Nestor Cabañas chegaram ontem a Araucária, na Região Metropolitana. Eles vieram analisar a extensão do acidente da Repar no Rio Iguaçu e os eventuais riscos de o óleo chegar ao país vizinho.

Chuva agrava o desastre no Iguaçu
Lyrian Saiki - jornal O ESTADO DO PARANÁ
A chuva que caiu na região de Curitiba ontem durante o dia todo agravou a situação do óleo bruto vazado na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária. O grande temor é que o óleo retido na várzea da refinaria, cerca de 1,5 milhão de litros, avance em direção aos rios Barigüi e Iguaçu, o que provocaria um novo desastre. Já nos pontos de contenção, onde funcionários da Petrobras e voluntários continuam trabalhando na sucção do óleo, as dificuldades são com relação ao acesso: as estradas de chão por onde passam os caminhões-tanque viraram um grande lamaçal. De acordo com a direção da Petrobras, até ontem pela manhã haviam sido retirados 2,3 milhões de litros de óleo, dos quatro milhões vazados. Grande parte do líquido se concentra entre os pontos de contenção 0 e 1, área da refinaria.

"Com a chuva, a várzea encharca ainda mais", alerta a ambientalista Lidia Lucaski, presidente da Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária (Amar). Com isso, aumenta a possibilidade de que o óleo se desloque para os rios. "Nosso maior medo é de que este óleo aflore e seja carregado para o Barigüi", aponta. Já nas várzeas ao longo do rio, o problema pode ser ainda mais grave, de acordo com a ambientalista. "Nesses locais, com a elevação do nível de água, o óleo remanescente pode atingir cavas abandonadas e lagoas, o que seria uma catástrofe ainda maior porque os animais silvestres vivem próximo a essas regiões e bebem essa água", avalia. "Dependendo da quantidade que chova, toda a fauna ao longo do Iguaçu pode estar afetada", lamenta.

Odor forte
Para os operários que trabalham nas várzeas da refinaria, a chuva também só veio dificultar o serviço. Como é uma área onde não há inversão térmica - ou seja, não há dispersão de gases na atmosfera - e por estarem localizados em pontos baixos, o forte cheiro do óleo se tornou ainda mais insuportável. "O problema é que naquela região o óleo está concentrado", explica Lídia. O acesso ao local foi impedido por ordens da direção da Petrobras.

Saibro e brita na estrada
Para melhorar o acesso aos pontos de contenção e retirada do óleo, prejudicado pela chuva, foi feita ontem a colocação de saibros e 40 caminhões de brita, com a utilização de cinco tratores de esteira e duas motoniveladoras. Segundo a Petrobras, até esta manhã foram recolhidos mais de 2,3 milhões dos 4 milhões de litros de óleo que vazaram no acidente, incluindo a parte que vazou para os rios Barigüi e Iguaçu e a que ficou retida na área interna da refinaria.

Análises realizadas pelo IAP e Sanepar no Rio Iguaçu afastaram o risco de contaminação da água em União da Vitória, o que prejudicaria o abastecimento do município. O monitoramento continua sendo realizado pela Sanepar, IAP e Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (Lactec). Amostras são coletadas, a cada oito horas, nos municípios de Balsa Nova, Porto Amazonas e São Mateus, e diariamente em União da Vitória.

Repar volta à carga total
De acordo com a direção da Repar, a refinaria voltaria a operar em carga total até ontem no final da noite, afastando o risco de eventual desabastecimento de derivados - principalmente gás de cozinha e diesel - aos Estados do Paraná e Santa Catarina. Até sexta-feira, a refinaria estava operando à meia carga, processando, em média, 15 mil metros cúbicos de petróleo por dia.

A Repar estava sem receber óleo de São Francisco do Sul (SC) desde o domingo, por ordem da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Na quinta-feira, a refinadora recebeu permissão para voltar a operar. (LS)

Araucária é bomba-relógio
As ameaças à fauna e à flora da região vêm acontecendo bem antes do vazamento de domingo passado. A promotora de Justiça de Araucária, Stella Maria Floriani Burda, afirma que a situação no município é muito grave por conta de problemas ambientais provocados não apenas pela refinaria, mas por outras indústrias instaladas nas margens do rio.

Ela diz que "Araucária é uma bomba-relógio. Agora aconteceu esse vazamento, mas em outubro de 98 explodiu uma torre de uréia, que também contaminou o rio. E, ainda este ano, houve um pequeno vazamento na refinaria, que motivou multa de R$ 200 mil pelo Instituto Ambiental do Paraná. O acidente na Petrobras não é o primeiro, nem o único". A promotora apresentou, juntamente com o Ministério Público Federal, medida cautelar que servirá de base a uma ação civil pública contra a Petrobras.

Imprevisível
Os prejuízos são incalculáveis e o impacto à fauna e à flora, imprevisível. Ambientalistas, governo e a Petrobras não conseguiram medir a extensão do problema. Os 50 quilômetros de rios - além do Iguaçu, o Barigüi - afetados diretamente pelo petróleo ficam nos municípios de Araucária e Balsa Nova, mas a apreensão é grande nas cidades vizinhas de Porto Amazonas e São Mateus do Sul, passando por União da Vitória, até encontrar o Rio Paraná.

A Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária (Amar) recolheu provas e ajudou o Ministério Público a denunciar a Prefeitura, as empresas e o próprio Instituto Ambiental do Paraná (IAP) por infrações à lei ambiental do município.

Vazamento PetrobrasA presidente da Amar, Lídia Lucaski, disse que a entidade foi a primeira a socorrer bichos atingidos pelo óleo. Para a promotora, o desastre na refinaria evidenciou o despreparo da Petrobras. A empresa anunciou ter contratado duas mil pessoas para trabalhar na limpeza do rio. A Petrobras também promete ajudar na recuperação da flora e da fauna.

De acordo com o professor do Departamento de Química da Universidade do Paraná, Carlos Jorge da Cunha, a contaminação pelo óleo pode atingir a água, o ar, o solo e o lençol freático. A composição básica do petróleo, explica ele, está nos hidrocarbonetos. Alguns componentes se dissolvem na água, como o benzeno, que é cancerígeno.

"O mais provável quando há derrame é a evaporação dos voláteis e a dissolução de componentes solúveis. O que está sendo retirado é a mancha, ou os componentes mais pesados. Somente a análise química do óleo permitirá avaliar o quanto ele pode ter contaminado a atmosfera e quanto se dissolveu na água", disse o professor.

Para Catarina Nalepa da Silva, moradora da zona rural de Araucária, o que está acontecendo parece um filme. "Há pouco tempo, a gente viu na televisão o desastre na Baía de Guanabara. Nem dá para acreditar que está acontecendo aqui", disse dona Catarina, ainda com o rosto vermelho e os olhos irritados. (Agência Globo)

Misiones está em emergência
Buenos Aires (AFP) - O estado de emergência ecológica foi declarado ontem na província argentina de Misiones, que divide, na fronteira com o Brasil, as famosas Cataratas do Iguaçu, depois do vazamento de quatro milhões de litros de petróleo nas proximidades do começo do Rio Iguaçu.

O ministro da Ecologia, Miguel Angel Alterach, afirmou que a medida foi adotada com "um critério preventivo, mais do que alarmista, e para tomar todas as medidas que forem necessárias ante eventuais danos ambientais ou de seres humanos".

O ministro precisou, em declarações à rádio local, que 60 funcionários deste ministério encontram-se em estado de alerta. Apesar de ser pouco provável que a mancha de petróleo chegue até as Cataratas, segundo assinalaram técnicos brasileiros e argentinos, ouvidos sobre o assunto, mais de uma centena de pessoas de organismos provinciais e nacionais se encontram na região organizando medidas de prevenção.

Aumenta consumo de água mineral
Em União da Vitória o temor da população fez crescer o consumo de água mineral. Mas o problema também afetou o município vizinho de Porto União, que pertence a Santa Catarina. Apesar de a Sanepar estar realizando análises da água a cada oito horas, a Secretaria do Meio Ambiente catarinense também decidiu monitorar a potabilidade da água do Rio Iguaçu. Representante da Região Sul no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), Tereza Urban diz que é possível verificar o impacto imediato, como a morte de animais, mas alerta que o problema é justamente a longo prazo.

Entidades ambientalistas apresentaram, semana passada, um relatório intitulado "Medidas mínimas para salvar o Rio Iguaçu da degradação máxima". "Não existe base de dados sobre o Rio Iguaçu, porque ele tem sido malcuidado ao longo do tempo", diz Tereza.

Vazamento Petrobras

O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) não tinha, até sexta-feira, avaliado o impacto do maior desastre ambiental do País desde 1975. O presidente do IAP, José Antônio Andreguetto, nega que haja omissão em relação ao Iguaçu. O rio tem pelo menos 69 espécies de peixes, alguns ameaçados de extinção. Peixes como a piaba, ou Cnesprodon carnegiei, só existem naquele rio. Na mata ciliar vivem aves como o martim-pescador, frango dágua, jaçanã, garça branca e biguá. Capivaras, lontras e guaxinins também vivem ao longo do rio. (Agência Globo)

Lamaçal prejudica acesso
Os 12 quilômetros de estrada de chão por onde passam os caminhões-tanque e equipamentos para limpeza do rio no ponto de contenção cinco, em General Lúcio, viraram um grande lamaçal. Dois caminhões encalharam um ao lado do outro, impedindo a passagem de outras conduções. Em poucos minutos, formou-se uma fila de nove caminhões da Prefeitura, da Petrobras e de demais empresas envolvidas no trabalho e que iam em direção a General Lúcio.

"Nossa maior preocupação no momento é a estrada", comentou o coordenador da operação no ponto cinco, José Carlos Carpeggiani. Segundo ele, um trajeto alternativo pela PR-423 (entre Araucária e Campo Largo) seria adotado. "É um acesso mais longo, mas um pouco melhor", garantiu.

Quanto ao trabalho de contenção e limpeza nos rios, Carpeggiani informou que 75% do óleo naquele ponto já foi retirado. "Se o tempo não atrapalhar, ainda hoje (ontem) a gente termina tudo". Com a chuva, quatro novas barreiras de contenção e absorção foram instaladas, na tentativa de reter o óleo. (LS)

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