Gazeta do Povo - 19/02/2001

Peixes de diversas espécies são encontrados mortos na região atingida
Vazamento na Serra do Mar é 40 vezes maior que o anunciado
FERNANDO MARTINS

Vazamento Petrobras
Foram recolhidos 48,5 mil litros de óleo; empresa havia previsto 1,2 mil litros

A Petrobrás reconheceu ontem que o vazamento de óleo diesel que atingiu a Serra do Mar é pelo menos 40 vezes maior do que havia sido divulgado pela própria empresa na sexta-feira, dia do acidente. Segundo o diretor da Transpetro, Wong Loon, até ontem a empresa já havia recolhido 48,5 mil litros de óleo. A estimativa inicial da Petrobrás era de que haviam vazado apenas 1,2 mil litros. A Transpetro é a subsidiária da Petrobrás responsável pela operação do poliduto que liga a Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, ao terminal portuário de Paranaguá.

Loon disse que o óleo recolhido já seria a maior parte do que vazou e prometeu o término da limpeza para amanhã – inclusive da fina camada de óleo que está passando pelas barreiras instaladas nos rios (a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, porém, acredita que o trabalho de remoção dessa película será muito difícil). Loon reconheceu que a avaliação inicial, feita visualmente, foi muito imprecisa, mas disse que não houve má fé.

O diretor da Transpetro ainda informou que que a causa do vazamento foi um rompimento do duto, provocado possivelmente por uma acomodação de terra que forçou a estrutura, que fica abaixo da terra, a uma profundidade de quatro metros. O vão aberto no duto teria cerca de 30 centímetros. Técnicos da Petrobrás ainda garantiram que o projeto do duto, em operação desde 1978, prevê acomodações de terra, mas que o peso do bloco de solo sobre o duto teria sido muito grande para a previsão.

Loon ainda afirmou que o rompimento do duto teria ocorrido por volta das 10h30, logo depois o vazamento teria sido constatado. O diretor de controle de recursos hídricos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Mário Sérgio Rasera, diz acreditar, porém, que o vazamento teria começado a ocorrer já no início da manhã, por volta das 7h.

Loon também negou que o óleo já tivesse atingido a entrada da Baía de Paranaguá e áreas de mangue, na foz dos rios atingidos pelo vazamento. Sobrevôos realizados pelo secretário estadual do Meio Ambiente, José Antonio Andreguetto e fotos tiradas pelo IAP, ontem e no sábado, porém, desmentem a Petrobrás. Segundo Andreguetto, ainda ontem era possível observar um filme de óleo sobre a água na entrada da baía, embora visualmente, a extensão do estrago fosse menor do que no sábado.

Isso ocorreu porque fortes chuvas caíram na madrugada do domingo, que diluíram o óleo. Por causa disso, o óleo ultrapassou todas as barreiras, disse o diretor da Superintendência de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Suderhsa), José Luiz Scrocaro. A Petrobrás informou que apenas a terceira barreira foi rompida. Scrocaro afirmou ainda que áreas de várzea e algumas plantações foram atingidas.

O secretário Andreguetto também confirmou que já estão sendo encontradas nos rios e na área de mangue diversas espécies de peixes mortas: bagre, tilápias, acarás, robalos e, inclusive, uma espécie ameaçada de extinção identificada pelos biólogos do IAP, mas que Andreguetto não soube informar o nome. Segundo ele, mesmo a fina película que está seria capaz de impedir a oxigenação da água – o que, conseqüentemente, estaria matando os peixes. A Baía de Paranaguá é considerada o maior berçário de espécies marinhas do Sul do país.

Avaliação

Para o secretário estadual do Meio Ambiente, José Antonio Andreguetto, o acidente na Serra do Mar mostrou que a Petrobrás não tem coordenação forte para lidar com acidentes ambientais, embora, a empresa forneça mão-de-obra e material sempre que solicitada para conter o problema. Na sexta-feira, primeiro dia do vazamento, por exemplo, havia operários, contratados para executar a limpeza,, que reclamavam que foram deslocados de Curitiba para Morretes sem ser avisados que, possivelmente, teriam que passar vários dias no local. O diretor de controle de recursos ambientais do IAP, Mário Sérgio Rasera, também afirmou que a Petrobrás mostrou-se "morosa" para começar a conter o vazamento.

IAP só libera duto com laudo que comprove segurança
Pesca nos rios e na área atingida será suspensa por portaria

O secretário estadual do Meio Ambiente e diretor-presidente do IAP, José Antonio Andreguetto, disse ontem que o poliduto da Petrobrás só será liberado para operação quando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) apresentar um laudo que comprove que o duto tem condições de segurança. A secretaria e o IAP esperam que a Petrobrás peça a desinterdição do duto nesta semana. Segundo o diretor da Transpetro, Wong Loon, até o carnaval a Petrobrás não pretendia utilizar o duto. Ele também afirmou que até essa data, não haverá risco de desabastecimento.

Andreguetto também anunciou que amanhã será assinada uma portaria estadual, com força de lei, proibindo a pesca nos rios atingidos e na parte da Baía de Paranaguá já atingida. A proibição deve atingir os rios do Meio, Sagrado, Nhundiaquara e dos Neves.

Famílias atingidas

A secretaria da Saúde de Morretes, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e a Defesa Civil até ontem à tarde haviam feito uma avaliação parcial que contabilizava cerca de 100 famílias atingidas pelo vazamento. Técnicos estavam visitando as residências para dar orientações aos moradores para não consumir a água e não deixar os animais de criação bebê-la. Não havia confirmação se houve algum morador com problemas de saúde por ter ingerido o óleo. O cheiro do óleo, porém, ainda ontem era forte em diversos pontos. A Petrobrás está fornecendo água potável e cestas básicas para as famílias atingidas e prometeu indenizar danos.

CONTINUA >

 

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