FOLHA DO PARANÁ 19/10/2001

Vazamento de nafta põe em risco a segurança do porto

A PETROBRAS não revelou a quantidade vazada de um navio em Paranaguá, mas pode ter chegado a 4,9 milhões de litros de nafta. Um mergulhador morreu.

Carmem Murara - Folha do Paraná

editorial@bonde.com.br

Curitiba

José Suassuna - Folha do Paraná


Portuário observa o navio da PETROBRAS encalhado no canal da Galheta, na Baía de Paranaguá

A PETROBRAS se envolveu em mais um acidente que provocou destruição do meio ambiente. Desta vez, também colocou em risco a segurança do Porto de Paranaguá e causou a morte do mergulhador Nereu Gouveia, 50 anos. Um navio carregado com 22 milhões de litros de nafta - substância altamente explosiva utilizada em combustíveis e na indústria química - bateu contra uma pedra próxima ao canal da Galheta. A PETROBRAS não precisou a quantidade de nafta que vazou ao meio ambiente, mas o volume pode ter chegado a 4,9 milhões de litros.

A Capitania dos Portos e a própria PETROBRAS não falam ainda sobre as causas do acidente, que ocorreu às 8h55, exatos 50 minutos após o navio "Norma" da própria PETROBRAS ter zarpado do terminal da empresa. O navio, que tem 161 metros de comprimento e foi construído em 1982, seguiria para Tramandaí (RS), onde o produto seria descarregado.

Uma das versões é de que houve erro da praticagem, que é o serviço de pequenos barcos que conduzem um navio dentro do canal. O prático responsável passou o dia junto ao navio para ajudar a controlar a situação. A empresa de praticagem Paranaguá Pilot não quis comentar o ocorrido, mas a Capitania dos Portos abrirá sindicância para apurar a responsabilidade. "Sem um relatório não dá para falar em negligência", afirmou o governador Jaime Lerner, que foi até Paranaguá para verificar a extensão do acidente.

O trabalho durante todo o dia foi para tentar estancar o vazamento, o que só teria ocorrido no final da tarde, por volta das 17 horas. Um grupo de 180 pessoas, entre bombeiros, funcionários do IBAMA e Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Defesa Civil e Capitania dos Portos, tentava transferir a susbstância do navio encalhado. No momento da operação, por volta das 17h30, o mergulhador Nereu Gouveia Albini passou mal e foi encaminhado à Santa Casa de Paranaguá.

O contato com a nafta foi fatal para Gouveia. Considerado mergulhador experiente em Paranaguá, ele morreu no hospital às 19 horas. Os mergulhadores tentavam avaliar a extensão da abertura no casco e a quantidade de nafta que estava vazando, mas acabaram ficando muito em contato com a substância tóxica.

Além do risco de contaminação às pessoas que trabalhavam para conter o vazamento e dos danos ambientais, o maior risco era de explosão do navio. Nafta é um produto altamente volátil. Qualquer faísca poderia causar um incêndio, o que colocou em alerta máximo a PETROBRAS, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros.

Um dos pontos positivos foi o dia ensolarado em Paranaguá que ajudou a evaporar a substância, que costuma se dissipar em até 9 horas. "A nafta é altamente volátil e por isso ela logo se dissipa no ar", afirmou o presidente da PETROBRAS, Henri Phillipe Reichstul. Ele passou parte da tarde em Paranaguá acompanhando o acidente. Segundo Reichstul, há pelo menos dois anos não havia registro de acidente com nafta pela PETROBRAS.

Nafta pode causar mutação genética

Em caso de inalação, a nafta pode causar problemas hepáticos e renais no ser humano, além de provocar mutação genética em peixes, atingindo a cadeia alimentar

Ellen Taborda - Folha do Paraná

editorial@bonde.com.br

Curitiba

A nafta que vazou pode causar danos irreparáveis ao meio ambiente. Essa é a opinião da geóloga geoquímica Alexandra Andrade, diretora técnica da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS). "Ela altera os seres que vivem no mar, provocando mutação genética dos peixes e prejudicando toda a cadeia ecológica." Para as pessoas, a nafta também pode provocar problemas hepáticos e renais, se inalada. O risco é menor do que se o vazamento fosse em um ambiente fechado, mas são o figado e os rins que são prejudicados ao tentar eliminar a toxina do organismo.

Técnicos do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Capitania dos Portos estavam estudando a retirada da pedra na qual bateu o "Norma". Segundo o diretor de Estudos para Ecotoxicologia Aquática do Centro de Pesquisas de Processamento de Alimentos da UFPR, Jackson Bassfeld, elas já tinham sido diagnosticadas como um local vulnerável da baía. Ele disse que visitou o local e não encontrou vestígios de animais mortos. "Se eles aparecerem, deve ser a partir de amanhã (sexta-feira)."

"Isso não pode ser chamado de acidente. Foi um erro inadmissível provocado pela negligência da PETROBRAS", afirmou o diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Clóvis Borges. Segundo ele, a empresa é responsável pelo treinamento de sua equipe. "O fato de se dizer que o erro foi de um funcionário não exime a PETROBRAS de responsabilidade."

Borges criticou o atendimento ao caso. Ele afirmou que não havia lanchas especializadas e equipamentos necessários só chegaram três horas e meia, depois do vazamento. "Onde está o plano de contingência da PETROBRAS?" Para Borges, a empresa não aprendeu com os acidentes anteriores. "Acabamos com um sentimento de frustração, pois as coisas se repetem e nada é feito”.

GAZETA DO POVO – 19/10/2001

Navio derrama 4 milhões de litros de nafta em Paranaguá

O navio Norma, da PETROBRAS, derramou ontem 4,1 milhões de litros de nafta na Baía de Paranaguá, depois de bater em uma pedra. A PETROBRAS informou que o vazamento foi controlado, mas a embarcação tem mais quatro tanques iguais e todos cheios.

(foto: Aniele Nascimento)

A 1,5 km do cais, o navio da PETROBRAS bateu numa pedra, rompeu o casco e começou a adernar. O vazamento de nafta fez ressurgir o fantasma de uma tragédia ambiental.

Mais um dia negro para o meio ambiente do Paraná. E desta vez a população também corre riscos. O vazamento do tanque com quatro milhões de litros de nafta de um navio petroleiro da Petrobrás, no Porto de Paranaguá, ontem pela manhã, ameaça aproximadamente sete mil moradores da cidade, que vivem em um raio de dois quilômetros a partir do local do vazamento. O produto se evapora facilmente e pode se inflamar ao menor contato com uma fagulha. Esse fato provocou a proibição da circulação de embarcações nas proximidades do navio e do tráfego aéreo na região. A gravidade do acidente também levou a Paranaguá o governador Jaime Lerner, o presidente da Petrobrás, Henri Philippe Reischtul, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, e o presidente do IBAMA, Hamilton Casara.

O Corpo de Bombeiros fez uma análise das chances de explosão do navio no final da tarde de ontem e tentou tranqüilizar a população. Não havia risco iminente e a previsão era de que, durante a noite, essa perspectiva se mantivesse. Segundo a PETROBRAS, a nafta também teria parado de vazar durante a tarde. O material que atingiu o mar teria se evaporado totalmente. Apesar disso, os técnicos não descartaram a hipótese de que o produto voltasse a atingir o mar.

O vazamento da nafta, um derivado do petróleo, começou depois que o navio-tanque atingiu uma laje de pedras subterrâneas, na saída do porto, a 1,5 km do cais. A embarcação havia sido carregada com o produto durante a noite da quarta-feira e na madrugada de ontem, no Terminal da PETROBRAS, que fica no porto. Saiu, em direção ao Porto de Tramandaí (RS), pouco depois das 8h. Cerca de meia hora depois atingiu as pedras.

A PETROBRAS não informou as causas do acidente. Mas existem duas hipóteses prováveis. Pela primeira, o navio da PETROBRAS procurava desviar de uma outra embarcação que entrava no cais. O prático, funcionário do porto responsável por guiar a entrada e saída dos barcos, teria escolhido uma rota alternativa, mas acabou encalhando nas pedras, que são mapeadas e conhecidas.

Pela outra versão, o navio teria apresentado um problema mecânico e se desgovernou, acertando as pedras. A associação dos práticos foi procurada pela reportagem da Gazeta do Povo, mas não quis se pronunciar sobre o assunto.

Os impactos sobre a natureza da região também não haviam sido avaliados até ontem. Segundo o secretário estadual do Meio Ambiente, José Antônio Andreguetto, a previsão era de que os efeitos não sejam trágicos. A nafta é mais leve que a água, por isso não chegaria a atingir as áreas abaixo da superfície, onde vive a fauna aquática. A evaporação também diminuiria os impactos.

Mergulhador paranaense morre após participar de inspeção ao casco

Causa da morte não era conhecida até o início da noite

O acidente de ontem teve pelo menos uma vítima fatal. O mergulhador Nereu Gouveia morreu no fim da tarde depois de participar da operação de vistoria do navio Norma, na baía de Paranaguá. Até o início da noite, não se sabia qual a causa da morte, que ocorreu por volta das 18h30, nem se ela tinha relação com o produto que vazou do navio Norma.

Gouveia foi contratado ontem pela PETROBRAS para inspecionar o rombo no casco do Norma. O objetivo da inspeção era determinar o tamanho da abertura feita na estrutura e saber se havia mais tanques perfurados.

O mergulhador, que morava na cidade, trabalhou durante a tarde e começou a se sentir mal às 17h30. Ele foi levado à Santa Casa de Paranaguá, mas morreu antes de chegar ao hospital. Segundo os médicos, Gouveia não morreu de afogamento, mas ainda não se podia saber se havia sido intoxicado pelo produto derramado no mar.

A assessoria de imprensa da PETROBRAS informou no começo da noite que mais um mergulhador da equipe de inspeção teve problemas de saúde e foi levado para a Santa Casa da cidade. O caso, porém, não era grave e pouco tempo depois o profissional já tinha recebido alta. A assessoria não mencionou qual foi o problema enfrentado pelo segundo mergulhador. A PETROBRAS não informou quantas pessoas participaram da operação de inspeção ao navio. As operações de inspeção foram interrompidas à noite e devem ser retomadas hoje. O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, lamentou a morte o mergulhador.

MP abre inquérito

O procurador da República João Gualberto Garcez Ramos assinou uma portaria para determinar ontem mesmo a instauração de um inquérito civil público para apurar as causas e as responsabilidades do acidente ocorrido pela manhã no Porto de Paranaguá. O objetivo é determinar quem pode ser responsabilizado criminal, civil e administrativamente pelo vazamento de nafta do navio “Norma”. Garcez Ramos também solicitou informações sobre o caso para a PETROBRAS, para a TRANSPETRO, para o IBAMA e para a Agência Nacional das Águas, que têm dez dias para enviar as respostas ao Ministério Público Federal.

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